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Ano XIII | 26 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Fim do pão e circo

Renato Rezende

Poeta e romancista,

ganhador do prêmio Alphonsus de Guimarães,

da Fundação Biblioteca Nacional 2005

com o livro de poemas Ímpar

Num curto ensaio anterior referi-me a violência simbólica que nós, o povo brasileiro, temos sofrido calados nos últimos anos, e que teria eclodida agora, nas manifestações de rua, e usei o futebol como exemplo. Nesse curto ensaio retorno ao assunto de forma mais ampla. É notório que há 10 anos atrás, o país, emocionado e em júbilo, comemorava a primeira eleição de Lula num mar de bandeiras vermelhas. Quatro anos depois, na campanha da reeleição, evitou-se o vermelho (o PT se sujava) e focou-se no verde e amarelo. Na eleição de Dilma, em meio ao escândalo do mensalão, financiada pelo carisma de um Lula que se disse traído, a própria sigla do partido manteve-se discretamente em segundo plano. Nas manifestações que hoje sacodem o país, as bandeiras partidárias não são bem-vindas. “Meu partido é o Brasil”, dizem alguns cartazes.

São inegáveis as conquistas sociais trazidas pelo PT, na esteira dos governos FHC (cujas conquistas o partido nunca soube reconhecer com justiça), e a contribuição do PT ao país é imensa. No entanto, ao mesmo tempo em que traia seus princípios éticos, e chafurdava em alianças tenebrosas e num grau de corrupção jamais visto neste país, o PT, cada vez mais distante de um debate sério com a sociedade, entrava no delírio da identificação com o próprio país. A violência simbólica a que me refiro aqui, e da qual fomos vítimas, foi um discurso cada vez mais hegemônico por parte das esferas governamentais e estatais com o subtexto que o Brasil é o PT, que quem é contra o PT é contra o Brasil, e que o Brasil livrou-se, num passe de mágica, de 500 anos de exploração graças ao PT. Contra esse discurso reducionista levanta-se hoje o povo brasileiro.

O Brasil é maior que o PT. Não vivemos apenas de eletrodomésticos. Não somos tão idiotas. Não é porque amamos futebol engoliremos a prepotência da Fifa e seus lacaios. Não é porque o PT contribuiu em muito para o país engoliremos um discurso simplório e populista. A política do pão e circo acabou. O povo não é mais uma massa amorfa, fácil de conduzir e manipular. A população é formada por milhões de sujeitos, com nomes, desejos e ideias próprias, e com forte capacidade de mobilização. Isso todos os partidos políticos, não apenas o PT e não apenas no Brasil, vão aprender na marra, ou perecer. O PT é um partido que fez acertos e erros, que acreditou que os fins justificam os meios, que comprou a oposição (que em grande parte se deixou vender), que perdeu a noção de sua importância histórica e, em grande parte, se corrompeu, perdendo representatividade. É evidente que há um sentimento de decepção.

Na última década houve no país um enorme crescimento econômico e cultural, mas um empobrecimento político. Não contra estes crescimentos, mas contras esse empobrecimento, nos levantamos agora. Para, espero, um debate amplo e honesto. É preciso que o Brasil amadureça, e eleve o nível de seus debates, sem demagogia e fisiologismo.

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