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Ano XIII | 23 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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O futebol é do povo

Renato Rezende

Poeta e romancista,

ganhador do prêmio Alphonsus de Guimarães,

da Fundação Biblioteca Nacional 2005

com o livro de poemas Ímpar

Evidentemente, muita coisa sábia, muita asneira, muitas declarações oportunistas, outras demagógicas, muitas perplexas, eufóricas ou paranoicas estão sendo proferidas em meio a esses já muitos dias – e não se percebe tendência a diminuírem, apesar da injustificada violência policial, como a que vimos na quinta-feira dia 20 de junho no Rio de Janeiro – de manifestações públicas em todo o país. Em geral, sinto-me, pelo menos até este momento, razoavelmente satisfeito com o debate, com as discussões levantadas, com a coragem e disponibilidade da maioria. Resta saber até onde seremos capazes de prosseguir, como uma sociedade democrática, em um debate aberto, de aprofundar os temas levantados pelas manifestações, de tomar conclusões coletivas e agir para o bem da nação – que, no fundo, é o desejo que comove todos os que vão às ruas.

No entanto, a meu ver, pouco se falou até agora sobre a violência simbólica que sofremos, como brasileiros, diária e intensivamente, e que retorna agora de forma difusa nas ruas. Poderia falar sobre a hipocrisia dos discursos oficiais (governos, mídias, etc.), que constantemente ofendem nossa inteligência e paciência, mas vou usar como exemplo o futebol, que me parece um caso particularmente significativo. O futebol, de certa maneira, define e molda a civilização brasileira de modo especial, e não são poucos os cientistas políticos e antropólogos que se debruçaram de maneira feliz sobre o assunto. Não creio que seja apenas uma coincidência que as manifestações tenham eclodido em meio à Copa das Confederações. De fato, o único elemento novo no contexto nacional é exatamente a Copa. Corrupção, mau uso das verbas públicas, horríveis serviços públicos, fisiologismo político, etc. infelizmente são companheiros cotidianos do povo brasileiro desde sempre. E não é simplesmente pelo fato de que a Copa serviu e serve para um imenso desperdício e desvio de dinheiro público. Isso toda criança sabia que aconteceria desde muito. Surpresos estaríamos se fosse diferente. A violência simbólica a que me refiro no caso é o seqüestro do futebol, patrimônio do imaginário de uma nação, para ser instrumentalizado como mera mercadoria, processo que nos empobrece e humilha.

Toda vez que vejo as insistentes palavras e imagens de propaganda de bancos, cervejas, carros, governos, seja lá o que for, explorando uma fantasiosa e ridícula associação de suas marcas e produtos com o futebol, me dá vergonha de gostar tanto desse jogo, de encontrar filosofia e arte nele, me dá vergonha de torcer, me dá vontade de nunca mais voltar a um estádio. O futebol era uma riqueza minha, nossa, que está nos sendo descaradamente explorada. Foi triste, por exemplo, ver o modo como a Fifa organizou o contato entre jogadores e público, ou o novo Maracanã: um estádio (ou uma arena, como agora, não sei porque, o chamamos) sem personalidade, que mais parece um aeroporto internacional, de onde o povão foi expulso. Não há mais a geral, não há mais a arquibancada, é preciso se comportar com etiqueta da Fifa (uma entidade evidentemente autoritária, associada aos oportunistas locais como a CBF e a rede Globo). É claro que não suportaremos isso, é claro que tomaremos, simbolicamente, o Maraca de volta (quanto tempos aquelas cadeirinhas assépticas sobreviverão, não sei), é claro que lutaremos até o fim, pois pode-se roubar o bolso (e temos sido historicamente passivos nisso), mas não o imaginário de um povo. Evidentemente, não quero dizer que as manifestações se resumem ao futebol, muito menos que o futebol seja mais relevante do que a economia ou a política, ao contrário. Mas esse é o país do futebol, e o futebol é do povo.

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