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Ano XIII | 25 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Obscena alegria

Luiz Guilherme Barbosa

Crítico de poesia do Jornal Rascunho

Quando Lula chegou à presidência, havia um eco comunista neste gesto, de um operário assumir aquele lugar, e este gesto trazia à tona o questionamento da capacidade que teria de governar, o que foi superado ao longo dos dois mandatos. Questionava-se a capacidade intelectual de um cidadão governar numa democracia. Com a chegada à presidência de Dilma Rousseff, assumia o poder uma mulher que fora torturada. E assumir a presidência representa, em alguma medida, para esta mulher, uma exposição simbólica do seu corpo, do seu corpo de mulher, torturado. Este recado, biopolítico, do corpo que assume o poder, o poder de um lugar, a presidência, que não é ocupado por militar, intelectual, operário – nomes de ofícios –, mas por mulher, torturada – nomes eróticos –, este recado se disseminou de tal maneira, chegou ao corpo de, por exemplo, boa parte da minha família (profundamente conservadora) e de tanta gente diferente em idade e ideias que foi às ruas e possibilitou a compreensão de um gesto como este, de ocupar as ruas com nossos corpos – e não exatamente com nossas ideias, tão disparatadas –, provisoriamente, heterogeneamente, festivamente, temerariamente. O significado dessa ocupação das ruas vem depois, no modo como se pode transformá-la em trabalho, em aula, em família, em voto, em ONG, em amizade. Instável, singular, mas não anônimo: este trabalho é, já que o jogo é simbólico, uma assinatura. O jogo é simbólico, e opera no ponto cego entre a família e o estado, ou seja, no ponto cego da cidadania, que se exerce de modo difuso a qualquer momento, ao pagar o aluguel injusto, ao receber o salário injusto, ao pegar o ônibus injusto e buscar o trabalho justo. Por isso é tão importante, por um breve momento, ignorar sumariamente as fundamentais conquistas políticas das gerações de antes, afirmar-se como cidadão e, como cidadão, não ser filiado a partido, e, como cidadão, não desejar ser vereador, deputado, prefeito, líder comunitário, e, como cidadão, interpretar e, posteriormente, inscrever a ocupação provisória das ruas nos menores gestos, que muitas vezes não se compreendem bem, outras vezes se compreendem mais, mas que, de qualquer modo, são – os gestos de cidadania – quase sempre uma tentativa de aproximação com os outros, quaisquer outros. Por fim: desde a noite de segunda-feira, dia 17 de junho, pude dormir melhor. Foi a manifestação no Rio de Janeiro que definiu, mais claramente, uma diferença, a da alegria sem causa. Falei por esta manifestação, à maneira dela. Portanto, falou-se. Falou-se ao desejar outra democracia, ao desejar outra coisa do mesmo, ao expor, obscenamente, o tamanho vazio ideológico e o tamanho, tamanho vazio, mal-estar, indiferença, muita alegria e algum ódio com que carrego, pelas ruas, este corpo. A guinada conservadora, pouco enigmática, do movimento é, também, voz obscena, mas sem alegria.

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