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Ano XIII | 26 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Tateando na neblina

Leonardo Davino de Oliveira

Poeta, pesquisador e ensaísta

Entre a euforia e a ressaca, percebemos logo cedo que o simples fato de o Brasil sediar grandes eventos esportivos, na prática, não melhoraria em nada as condições de vida no país. A desconfiança se revelava coerente a cada enfrentamento com os desserviços públicos. Manifestações e piadas – como o disseminado “imagina na Copa” – contra a autopromoção do Brasil pipocavam. Portanto, dizer que “o gigante acordou” deve significar dizer que as vozes se juntaram em coro, posto que nunca dormiram e sempre estiveram em busca de suas representações.

O alardeado crescimento econômico não era sentido na pele do cotidiano como a solução de todos os problemas. Ao investir em números, o governo federal esqueceu que as frações também devem ser signos da existência de seres viventes múltiplos, diversos, plurais. E essa insensibilidade em relação às especificidades dos povos dentro do “povo brasileiro”, essa massa ainda encarada como uniforme, é um dos temas das manifestações que enchem as ruas do país neste meio de 2013. Mas não é só isso.

Atentos aos sinais: a peça “Adeus à carne” (2012), dirigida por Michel Melamed, e a performance “O confete da índia” (2012), de André Masseno, já apontavam a pane no sistema ético-político perpetuado no Brasil. Enquanto a peça de Melamed investia na crítica dos mecanismos de apropriação política da festa do carnaval para fins de mascaramento da dor-Brasil alastrada sob o brilho dos falsos diamantes do dia-a-dia, a performance de Masseno sugeria um retorno às nossas mitologias ontológicas, libertas da assepsia eugenista imposta pelo conservadorismo religioso e político e, agora, pela FIFA. O chamado “padrão FIFA de qualidade” tem se revelado um dispositivo de distanciamento entre classes, de potencializador da negação das misturas étnicas, sociais e culturais formadoras do Brasil.

Aliás, não devemos estranhar que mais uma vez a festa do futebol, nosso “veneno-remédio” esteja no vértice das questões. Ao que parece, o “povo” não se permite mais cair no jogo de luzes que é o futebol apropriado pelo capital. O Maraca ainda é nosso? A cidade é nossa? O que dizer da tirania dos patrocinadores que não permitem concorrência? Quem vai poder entrar nos estádios depois que a predadora FIFA juntar seu circo e partir para outro país?

Não foi por se afastar das vozes que hoje gritam em coro frases como “Reforma política já”, “Nenhum partido me representa”, “Mais amor, por favor”, “Contra a PEC 37”, “Meu cu é laico”, que o PT se viu à margem dos movimentos? O PT à frente da presidência nos fez perceber que não basta apenas ser de esquerda, se o partido progressivamente se afasta da polifonia das ruas, repetindo fórmulas gastas e antes criticadas. É preciso fazer diferente. Mais. Melhor.

Foi por ter sido proibido de protestar que o volume de gente nas ruas aumentou? Já era a – “oficialmente”, digamos assim – sétima vez que bravos manifestantes iam às ruas chamar a atenção para os absurdos que envolvem tais campeonatos esportivos: como por exemplo, as remoções higienizadoras, a limpeza dos estádios e a falta de transparência no uso do dinheiro público nisso tudo. Até os índios cujas pautas eram defendidas por uns poucos se viram absorvidos pelo coro das ruas. Mas a quem tais protestos são direcionados?

Fingindo não ser com eles, os presidentes do DEM e do PSDB “comentam” desdenhosamente o pronunciamento da presidente da República. Repetem a cantilena querendo nos fazer crer que a corrupção surgiu hoje.

A imprensa dá dez vezes mais destaque aos atos de vandalismo praticados por alguns manifestantes que às pautas de reivindicação. E age no automatismo da frase de efeito generalizador: “As manifestações que começaram pacíficas, mas...”. Não fossem às inúmeras imagens disponibilizadas nas redes sociais – nunca uma expressão fez tanto sentido – não teríamos acesso à truculência da polícia, à virulência da direita. Sim, ainda temos uma direita forte, ou isso fica bastante evidente quando um colunista finge não entender a estratégia do recuo enriquecedor do MPL (Movimento Passe Livre). Onde foram parar as imagens da violência policial captadas pelas centenas de jornalistas e repórteres que “cobrem” os protestos? Na Globo a gente não vê. O que vemos são tentativas fracassadas, posto que desenvolvidas e escritas diante da TV, de fazer o telespectador “entender” a situação. A manchete encanta: “Pesquisa Ibope revela quem são e o que querem os manifestantes”. O Fantástico divulgou a pesquisa exclusiva.

Fingindo não ser com ela, a polícia do Rio de Janeiro “legitima” as “manifestações pacíficas” e varre as ruas do Centro da cidade juntando tudo e todos que encontra pela frente em um mesmo saco, sempre com a justificativa de que todos “excessos” serão “investigados”. Pessoas que sequer estavam nas manifestações foram atingidas por balas de borracha e por gás.

Mas a quem interessa essa legitimação da “manifestação pacífica”? A quem interessaria uma reedição dos “caras pintadas”? A quem interessa hackear as contas do Anonymous Brasil? O disque-denúncia está recebendo informações sobre os “vândalos”. De qual tipo de vandalismo estamos falando? Na TV um mendigo diz não estranhar a ação da polícia, afinal é assim que eles agem nas periferias das grandes cidades. Ele espera que, sendo as vítimas agora “pessoas estudadas”, algo mude.

Fingindo não ser com ele, o deputado pastor preside a sessão que votou um projeto de lei (de João Campos, PSDB) que libera a “cura gay” por parte dos psicólogos, dando um salto de retrocesso sem precedentes no que se refere à liberdade individual. Fingindo não ser com eles, os conluiados do pastor aprovam. E ainda ameaça a Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, quando esta se diz contrária ao projeto, evocando o poder do voto dos fundamentalistas religiosos nas próximas eleições.

O núcleo duro disso tudo parece ser o alto preço que pagamos por péssimos serviços. Para desespero dos políticos surdos aos eleitores (sim, não podemos esquecer que somos nós quem os colocamos lá), o “povo” não se ilude mais com os fingidos. Parece cansado de fazer de conta que está tudo muito bom. Será que esse tipo de político que esquece que só chegou ao mandato pelo voto, está com os dias contados? Tomara. A ver!

Tenho dito que sou apartidário, mas não antipartidário, afinal muita gente lutou, foi torturada e morreu para que eu tivesse o direito de votar e lutar. Mesmo que nenhum partido hoje me represente, não posso deixar de defender a presença deles. Minha bandeira é a da Reforma Política. Estive na Avenida Rio Branco. Estive na Avenida Presidente Vargas. Na primeira, cercado de amigos, cheguei a Cinelândia tomado por uma alegria sem tamanho. Nada de palanques, nada de comícios, nada de porta-voz, a corporalidade de cada um ali era o todo. Só fiquei sabendo dos confrontos entre policiais e manifestantes quando cheguei em casa. Na segunda, havia um clima diferente, a “imprensa” trabalhou pesado na fetichização dos atos (kit manifestação?), para a alegria dos coxinhas (neo-pelegos). Sim, reacionários também estão indo às ruas. E isso é bom. Em momentos de crise da representação máscaras aparecem e caem em velocidade estonteante. “O que vocês acham de decidirmos um padrão de roupa e cor de blusa para ficar mais claro que é protestante?”, pergunta uma ingênua manifestante. Saímos correndo quando os primeiros pipocos das bombas se aproximaram de nós, quando a neblina avança em nossa direção.

A crise da representação parece estar derrubando os muros erguidos para separar políticos e “povo”. E tornando-nos mais exigentes. Senão vejamos este relato que circulou no Facebook: “Estava uma fila enorme e só 1 caixa atendendo. Um senhor começou a gritar “COLOQUEM MAIS CAIXAS” e todos começaram a acompanhar batendo palmas e gritando “MAIS CAIXAS” “CADÊ O GERENTE” “MERCADO DE M”. Começou a juntar muita gente. O ponto alto foi quando apareceu um segurança com cara de mau. O povo começou a gritar “EM VEZ DE MANDAREM CAIXAS, MANDARAM SEGURANÇAS”. Rapidinho apareceram mais 5 caixas para atender”.

Será que em vez de “povo” ainda seremos uma sociedade onde as várias vozes em coro gritam por cidadania? Tomara. A ver.

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