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Ano XIII | 14 de julho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Movimento Ensaio Livre: dentro e fora da rua

Eduardo Guerreiro B. Losso

prof. de Teoria da Literatura da UFRRJ

4- Da crítica ao sistema ao exame de si mesmo

I- Alguma coisa em vez do nada

Enquanto isso a boa e velha mídia continua mentindo descaradamente como sempre, Cabral cada vez mais truculento, novas mídias surgindo e cobrindo a verdade, OAB de prontidão nas delegacias a favor dos manifestantes, Anonymus crescendo de popularidade a cada segundo, Black blocs se destacando como os corajosos da cena: a estrutura da nova realidade está se consolidando, com ou sem partido, com ou sem sindicato, mais ou menos gente nas ruas. Velhas gerações do povo criados pela ditadura acreditam na mídia, logo, na ideologia dominante, mas a multidão que está mudando o Brasil está cada vez mais convicta de sua consciência e força. PM – governo – grande mídia, população conservadora X estudantes, professores, médicos, advogados, jornalistas, etc. ativos no protesto, conscientes e indignados.

Por mais que o aparelho repressor, midiático, ideológico, político, faça de tudo para confundir, desvirtuar, essa oposição principal não muda: ela está se reforçando. Falta ainda ficar mais claro para todos que não é o "Cabral", a "Dilma" o problema, nem são só absolutamente todos os políticos. Eles não são mais do que a superfície visível dos empresários que mandam no capitalismo tropical, enfim: é o sistema. Para ir mais fundo, é preciso denunciar tudo: o falso plebiscito, o falso 10% para educação, a falsa necessidade de tirar os 0,20 de outro lugar, a falsa falta de dinheiro, as mil artimanhas para desviar e não fazer o que deve ser feito. Mas tudo a seu tempo. Indignado já estou desde que me entendo por gente, mas alegre e sorridente diante de uma multidão insistente e corajosa. Por pior que seja ver a desfaçatez da truculência policial, ela é uma reação à vitoria da mais admirável consciência política que o povo indignado brasileiro pôde um dia aceder. Ainda falta muito chão para essa consciência amadurecer, mas entre o nada e alguma coisa, estou ainda me perguntando com o meu compadre Leibniz como é possível existir alguma coisa em vez do nada.

II- Da crítica ao sistema ao exame de si mesmo

O que falta para essa consciência avançar? Muito chão, para começar com os seguintes itens: 1- deixar de se fixar em "Cabral", por pior que ele seja, nem nos políticos, nem acreditar que possa existir um político bonzinho: político é a superfície visível do mundo muito bem protegido do capitalismo, feito, a saber, de empresários.

2-logo, não se indignar só com corrupção, que se limita aos corrompidos políticos, e sim os que precisam corromper, e são seus maiores beneficiários: todos esses seres invisíveis do empresariado, que não são uma só vez nomeados. Quem são os donos das empresas de ônibus, por exemplo? É claro que devemos incentivar os empresários empreendedores e trabalhadores que fazem a economia crescer, isto é, especialmente os pequenos empresários, mas esses também estão insatisfeitos com a situação;

3- é preciso denunciar tudo: o falso plebiscito, o falso 10% para educação, a falsa necessidade de tirar os 0,20 de outro lugar, a falsa falta de dinheiro, as mil artimanhas para desviar e não fazer o que deve ser feito;

4- francamente: não importa o meio, queremos é o fim: saúde, educação, transporte público, saneamento, segurança, habitação de qualidade, padrão FIFA e Rede Globo; também preservação da natureza, direitos dos índios, diminuição do custo de vida; só isso, mais nada, ou seja, muito pouco. Somos humildes e modestos: não queremos carro do ano, jatinhos, sítios particulares, propriedades de terras, muitos imóveis, etc. nada disso aí que vocês têm. Temos certeza que ainda sobra dinheiro para vocês terem o seu sagrado lucro e a bolsa ficar em alta. Ou vocês vão ter de confessar que o capitalismo não funciona a não ser oprimindo e explorando a maioria, ou deverão fazer uma reforma sim, mas uma reforma revolucionária.

5- “Se quer mudar o mundo, comece por si mesmo”. Essa singela frase tão repetida em várias organizações de protesto deve ser levada mais a sério do que todas as outras, a meu ver. Há toda parte significativa da história da filosofia, da qual Sócrates participou com o seu “Só sei que nada sei”, bem como a parte mais sofisticada das religiões, que desenvolveu um longa tradição da busca da autotransformação. Esse é o ponto cego de toda discussão política. Podemos matutar nas vantagens e desvantagens dos vários sistemas de governo, viáveis ou não, resignados, realistas ou utópicos. Mas o item “melhorar a educação” é central justamente porque deveria ir muito além de fornecer conhecimentos técnicos aos adolescentes.

Faça uma pergunta: por que a maioria das pessoas que enriquecem se tornam tão ou mais fúteis e viciadas em sua riqueza quanto as que com ela nasceram, guardando motivos muito pessoais para querer manter o sistema cada vez pior? Para mudar isso, seria preciso nada mais nada menos do que resgatar a tradição dos exercícios espirituais filosóficos, religiosos (sua ascese e mística), poéticos, artísticos com muita seriedade, estudar suas metamorfoses na modernidade e pensar em modos de atualização. Esse é especificamente o meu trabalho e esforço como pesquisador há uns 20 anos, como estudante e professor, e ainda estou no começo do caminho. Seria preciso simplesmente inverter as prioridades do conteúdo do ensino e dar aos alunos elementos genuínos para “conhecerem a si mesmos”.

6- Por isso mesmo, a luta não é só nas ruas. Há uma necessidade de reunir pessoas, protestar, enfrentar o sistema em cena. Mas há tanto ou mais necessidade de uma luta fora das ruas, nas relações cotidianas, e dentro de si mesmo, na relação consigo mesmo. Ir às ruas tem sido um imperativo muito importante, mas entristecer-se com menos pessoas que o último recorde numérico, e achar que tudo se resolve assim, é fetichizar as ruas e o seu espetáculo. Junto com o incentivo ao combate do protesto, é preciso mais incentivo ao combate interior, sem ilusões de autoajuda, sem ingenuidades, aliás, diferenciar inclusive o estudo das tradições, suas rupturas e reinvenções, faz parte deste estudo de si. O conhecimento filosófico, religioso, psicológico e artístico precisa ser mais incorporado na prática de viver, mas o ensino, a pesquisa universitária e, consequentemente, a luta política desprezam e desqualificam essa dimensão, e a psicologia parece estar muito distante disso, embora nessa luta microssubjetiva esteja contido o cerne das grandes lutas. Então é preciso, de fato, repensar nada mais nada menos do que toda a relação entre teoria e prática, não só teoria abstrata e prática política, mas, principalmente, teorias da subjetividade e práticas de si. A radicalidade da crítica social tem necessidade imperiosa de aliar-se à radicalidade do trabalho de si. É no exame da relação consigo e com o outro, feito com olhos analíticos e meditativos, que a crítica social pode ganhar a sua real profundidade e abragência.

III- Por trás dos políticos em evidência

Os PMs não são os capangas dos políticos? Então, só falta completar: os políticos são os PMs dos grandes empresários.

Você acha que político é gente confiável? Não? Então porque deveríamos pensar que os homens que mais ganham dinheiro no Brasil, e continuam inomináveis e intocáveis, mandam nos políticos, seriam confiáveis? A fama de Eike é só uma exceção que confirma a regra, porque ficou evidente demais, a maioria está na penumbra.

Isso é discurso de comunista? Não. Assim como é preciso reconhecer os pequeníssimos grandes feitos e batalhas de Lula, reconhecer que o PT é menos pior que a direita, é preciso reconhecer uma editora como Cosac Naify, iniciativas privadas como Oi Futuro, Itaú Cultural, Sesc principalmente, embora a maioria continue sendo as públicas, como CCBB, crescimento das universidades, etc. Aplaudo de pé, é preciso dar mérito ao que tem mérito, com louvor, precisamente para incentivar o seu crescimento.

Mas tudo isso é demasiadamente pouco para o que é preciso, os poucos feitos são uma porcentagem mínima, também são uma exceção que confirma a regra!, então o incentivo deve se tornar uma reivindicação. Não queremos migalhas. Temos a modéstia de querer o mínimo necessário, e ainda estamos muito longe disso. Não nos enganem com porcentagens ínfimas de seus lucros. Por mais que Marx deva ser em parte criticado e atualizado, por mais que ele tenha sido tão redirecionado e deturpado, as verdades que ele disse há quase 200 anos atrás modificaram muito pouco.

Portanto, meu lema não é fora Cabral, por mais que eu me simpatize com ele. Meu lema é: Cabral, mostre a cara de seus patrões em vez de PMs.

Mas ainda não fico satisfeito só com isso. Vou mais além: é preciso não só denunciar os principais interessados no sistema, mas também é preciso direcionar a educação e o conhecimento para modificar a mentalidade que mantém o sistema. Os ricos são os primeiros que deve ser urgentemente reeducados. Repito: então é preciso, de fato, repensar nada mais nada menos do que toda a relação entre teoria e prática, não só teoria abstrata e prática política, mas, principalmente, teorias da subjetividade e práticas de si.

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