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Ano XIII | 23 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Movimento Ensaio Livre: dentro e fora da rua

Eduardo Guerreiro B. Losso

prof. de Teoria da Literatura da UFRRJ

3- Cultura de esquerda e falsa alternativa: fascistas e partidos

Não, não haverá golpe, podem ficar tranquilos: já estamos nele. Não, não vou apoiar agora o PT por causa dos fascistas, essa é a mais nova e fresca falsa alternativa.

Ficou evidente para mim que a tônica na minoria “vândala” da mídia, a franca violência totalitária dos governantes que mandam na polícia, juntamente com a falsa opção entre fascistas e partidos, estão conseguindo em parte o que queriam: desvirtuar a consciência crítica precisa ao sistema (falta de qualidade de vida) recentemente cristalizada pela população. Em vez de focar o motivo principal – a indignação do cidadão diante da precariedade dos serviços públicos – a discussão roda em torno de questões menores, polarizadoras, que reforçam posturas ideológicas e enfraquecem o teor crítico como: manifestantes devem ou não participar das passeatas, é válido ou não o uso da violência diante do ataque policial, a Dilma merece ou não apoio?

Vou me concentrar na primeira questão. Ela mostra que dois personagens políticos manipuladores e retrógados estão abaixo das conquistas recentes e apareceram para confundir, retroceder o espaço de escuta recém-conquistado de uma indignação com todo o sistema. A consciência política do cidadão de que é preciso uma mobilização apartidária que questione todos os governos e partidos em sua participação harmônica no descaso pela melhoria social substancial (e não eventual) e a clareza de que Copas e Olimpíadas não trarão nenhum benefício, a clareza mais surpreendente ainda de que o futebol serve para dopar o povo e a grande mídia promove mentira, omissão e alienação, não deveria ser desvirtuada.

Os fascistas passam a confundir a crítica à totalidade do sistema (à mídia, aos partidos, a todo o governo) com uma ideologia pior do que a dos partidos: querem retornar à ditadura. Nada melhor para sabotar uma consciência popular recém-conquistada do que injetar velhas distorções ideológicas. Se durante tanto tempo tal manobra funcionou, não admira que ela tenha condições de amedrontar ainda hoje. É óbvio que essa ideologia é a mais execrável e deve ser combatida. Dilma não merece impeachment, e impeachment não resolve nada. Paira no ar o desejo de retirar todos os políticos, contudo, substituir uns por outros nada mudará, e, inclusive, tem tudo para piorar. Temos exemplos históricos abundantes de que revoluções de esquerda e direita são infinitamente perigosas e que a democracia continua sendo a menos pior das possibilidades. Os políticos não devem deixar o poder, devem fazer o seu trabalho direito. A única possibilidade de alguma mudança positiva se concentra somente na pressão popular aos governantes, desiludida e orgulhosa de sua capacidade ativa. Os eleitores também não devem ser responsabilizados pelo voto errado, porque não há escolha e votar nulo aumenta a validade dos votos válidos. Não é no voto nem na eleição que a democracia dá alguma chance para a população, é na pressão coletiva contra o próprio sistema político capitalista.

Os defensores do PT e mesmo dos partidos de esquerda menores, embora sejam menos piores, não devem ser poupados. Está muito evidente que, no fundo, eles devem toda a retomada de seu status moral aos fascistas: agora eles podem gritar à vontade que os manifestantes indignados com os partidos são todos fascistas, podem posar de excluídos e avançados. Eles alimentam o alarmismo do golpe ditatorial (que não é justificado, pois os fascistas não tem esse poder) e assim ocultam as medidas de caráter totalitário, tanto dos governos de direita quanto de esquerda, que já estão em vigor. Um alimenta a paranoia do outro, um demoniza o poder do outro para que ambos fortaleçam o seu poder demoníaco, e a produção desse imaginário paranoico cega os reais motivos de urgência: o contraste entre os péssimos serviços públicos e o “padrão FIFA”, como belamente está sendo articulado pela retórica popular.

O maior problema dos partidos de esquerda é que eles mesmos são uma apropriação da cultura de esquerda que nunca se identificou com eles que os supera e os excede em muito. Refiro-me aos primeiros socialistas e a toda a tradição da arte moderna, desde Baudelaire, Rimbaud, passando pelas vanguardas mais críticas, feminismo, beatniks, situacionistas, contracultura, até movimentos descentralizados como os Anonymous de hoje. A verdadeira alternativa crítica coletiva aos partidos de esquerda, que não param de nos decepcionar, é a cultura de esquerda. Eles não se limitam a uma pauta reivindicatória precisa, que sempre modifica detalhes e não o todo; a esquerda cultural pretende romper com o modo de vida dominante, e seus valores intrínsecos, por isso, ela é mais radical e consequente. Ela quer transformar a percepção de mundo e a prática de vida, e não apenas mudar o programa do governo. Os partidos, desde a velha ilusão comunista até hoje, nunca aceitaram plenamente essa abrangência de mudanças e, embora os partidos mais marginais se infiltrem sempre nas mobilizações da juventude (como o fez um dia o PT), eles geralmente contribuem para a regressão da atitude transformadora com a apropriação de uma militância partidária, que sempre mantém a organização hierárquica e voluntária cegueira diante das lideranças que participam do sistema. Não quero excluir a possibilidade de um partido (ou parte de seus candidatos) conseguir uma mediação feliz entre essa cultura e a inevitável representatividade política, e assevero que o ideal é os partidos se abrirem à essa cultura, e não o contrário. Mas não é isso que tem sido feito nas últimas décadas.

A confusão entre um e outro é um dos nós falseadores mais difíceis de destrinchar na luta política hoje. É por isso que todo o trabalho dos diversos poderes que dominaram o Brasil, ao longo de sua história, e em especial a entrada da televisão na ditadura, mostra sua eficácia quando a maioria do povo caracteriza os tipos sociais da cultura de esquerda como “vagabundos”, “drogados”, “baderneiros”. Sabe-se que o povo brasileiro é essencialmente conservador, porque foi educado por poderes opressivos e conservadores, e hoje está ganhando o reforço dos evangélicos paranoicos. Mas é justamente nesse momento que estamos observando o sucesso parcial das causas da esquerda cultural defendidas por todos, especialmente pela nova classe média, e isso é motivo de felicidade para quem sempre viveu à margem da margem; isso leva à necessidade, inclusive, de cuidado com o novo terreno conquistado. Certamente um teórico crítico como eu não poupa críticas até mesmo a certas tendências da própria esquerda cultural, mas não posso prescindir dela, pois o espaço mais propício para ouvir pensamentos críticos sutis e se dispor a uma mudança profunda dos valores sociais é esse. Os jovens e veteranos dessa cultura guardam o único espaço coletivo que inspira esperança.

O que está se colocando em questão é o sistema partidário e a engrenagem perversa da política como um todo, portanto, os partidos não tem o direito, de fato, de se apropriar da indignação; mas, é claro, em termos de direitos democráticos, eles deveriam sim ter a autorização de participar das manifestações, embora com muitos poréns. O ideal, a meu ver, é eles serem mais honestos e organizar uma manifestação à parte, só deles; do mesmo modo os fascistas. Muitos acham que estou enganado. Mas, repito, essa é uma questão menor e produz, não tenho dúvida, uma confusão calculada para manobrar a causa maior.

Penso ser extremamente necessário educar o cidadão para não cair em faltas alternativas. A atual estratégia do poder, que se vale de todo o aparelho midiático, tem se dado nos últimos 20 anos precisamente nessa direção e tem demonstrado muito sucesso.

De qualquer modo, embora eles abalem o núcleo da nova percepção, não a ameaçam. Continuo guardando a felicidade de ver a população mobilizada contra o tudo aquilo que a oprime, sem particularismos divisores. Fica ainda mais clara, explícita, límpida, a contradição entre o discurso democrático dos governantes e as ações repressoras, bem como semiocultas manobras, intimidações, paranoias, oposicionismos, toda a variedade de propagações do medo e da discórdia. O que peço a todos é não deixarem de lado o sentimento libertador e os objetivos principais. Tudo isso pode até se deturpar e ruir em parte a leveza inicial. Mas são desafios de percurso.

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