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Ano XIII | 18 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Movimento Ensaio Livre: dentro e fora da rua

Eduardo Guerreiro B. Losso

prof. de Teoria da Literatura da UFRRJ

1- Rua e rede: eficiência da guerrilha pacífica

Faz tempo o Brasil poderoso, de PIB estratosférico, bom para políticos e empresários bem sucedidos, não redunda em melhorias das condições de vida, ao contrário, há vários sinais de piora, ou de medidas paliativas precárias. A continuidade entre o cinismo do poder e a indolência da massa leva à maioria ao pessimismo diante de sua própria sociedade. O sucesso econômico do Brasil e os tímidos avanços sociais do governo Lula contrastam com a precariedade dos serviços públicos, a insegurança e o descaso com direitos mínimos. O sujeito oprimido (que não é só pobre nem classe C) é cada vez mais levado à descrença por tudo e todos, em especial os políticos, e ao individualismo forçado.

Entretanto, surge agora motivo para uma verdadeira mudança da disposição afetiva, com mensagens e gritos como “#OGiganteAcordou”, “#UmFilhoTeuNãoFogeALUTA”.

As manifestações dos últimos dias já tinham sido antecipadas por várias outras: o repúdio à demolição da Aldeia Maracanã, protestos contra a corrupção, com direito a abusos da violência policial e omissão dos órgãos mais representativos da mídia. O que aparece de novo, nesse momento, é um reforço inédito do Movimento Passe Livre, que existe desde 2005, e a série de belíssimas atuações que já eram internacionais, desde 2003, e foram se fortalecendo em âmbito nacional dos Anonymous. Por sua vez, tais manifestações, no Brasil, obtiveram uma projeção nacional e internacional gigantesca e, principalmente, uma renovação do orgulho cívico de ser protagonista do protesto, em especial, diante do perigo intimidante da repressão policial.

Tudo o que há de exploração, descaso e corrupção vindo do poder se cristaliza com absoluta evidência nas medidas repressivas do governo federal e estadual. Já há algumas abordagens dessa insurreição do espírito de protesto popular, a maioria por parte de formadores de opinião reacionários, que oferecem o suporte ideológico retrógrado para propagar toda sorte de distorções, desvios e mentiras próprios de quem defende interesses dominantes, cujo resultado mais decepcionante apareceu nos deploráveis argumentos de Arnaldo Jabor antes do pedido de desculpas. Seu argumento principal desclassificava o direito de indignação dos manifestantes por se tratarem de jovens de classe média e os policiais serem oriundos das classes mais oprimidas – típica, covarde e, francamente, mal-intencionada estratégia populista para jogar a genuína consciência política dos estudantes, que tiveram oportunidade de sustentar o posicionamento crítico, contra a população que ficou de fora do privilégio da educação. Vale ressaltar que abordagens de qualidade estão aparecendo, em especial uma leitura crítica do sentido totalitário do desconforto dos transportes públicos, feita por Márcia Tiburi, outra por Vladimir Safatle, uma apreciação da atmosfera geral de Alberto Pucheu e uma síntese dos aspectos políticos, conhecidos e desconhecidos, de Luiz Eduardo Soares.

O que pretendo introduzir é uma espécie de foco que atenta, precisamente, para os aspectos concretos da novidade, cuja serventia será a de me aproximar mais de seu refrigério e vitalidade político-social, mantendo, evidentemente, o respeito por seu caráter inapreensível, reiterado por Soares. Por isso, minha posição é pendular, pois toma distância teórica para não se confundir com a imediatidade da situação e, ao mesmo tempo, quer contribuir e participar do protesto justamente a partir da potencialidade que o distanciamento proporciona.

A grande qualidade dos movimentos que iniciaram e conduzem a maior parte dos manifestantes é o cuidado de não só não usar de violência, mas não responder à truculência policial. A principal mensagem que os integrantes de Istambul deram aos daqui foi nessa direção, o que configura um estilo global eficiente para formas de passeata no século XXI. O palco da rua está todo direcionado para os espectadores mundiais via redes sociais. Todo tipo de abuso da polícia é respondido com gestos ostensivamente pacíficos, gritos de “sem violência” – verdadeira Marselhesa abreviada do movimento –, portando sempre a sua maior arma: as câmeras dos celulares. As instruções de páginas promotoras do movimento explicam detalhadamente formas de se proteger do gás lacrimogêneo, movimentar-se diante da confusão e cobrir o lance com vídeos e fotos, combinando técnicas de guerrilha pacífica, sempre defensivas, com técnicas jornalísticas. Em reação a isso, houve um boato de que os policiais, em manifestações do Rio e de São Paulo, revistaram transeuntes ao redor do local e apreenderam os celulares. Se for verdade, expõe com clareza o tipo de antagonismo que se instaurou entre pacifistas treinados e polícia militar, que, com isso, não hesita em escancarar a sua origem e tradição ditatorial.

A excelência moral do movimento se fortalece com a adesão da opinião pública, motiva sua presença na internet, que obriga à presença na mídia e, quando isso não ocorre, desponta sua descarada omissão, como ocorreu mais explicitamente com a Rede Globo, que no último Fantástico do dia 16/06/2013 pouco falou dos conflitos e evitou tocar na repressão policial. Depois, ao cobrir a passeata da segunda (17/06/2013), embora tenha deixado claro que os manifestantes violentos concentrados na ALERJ eram minoria, em torno de 50, e a multidão somava 100 mil (fora da mídia dizem ser 200 mil), a maior parte da notícia estava concentrada na ALERJ, reproduzindo a tendência geral de noticiar mais os criminosos do que a grande maioria de trabalhos construtivos que tantos promovem todo dia. Por conseguinte, a oposição dos manifestantes ao governo se soma à oposição ao obscurantismo da grande mídia, cujas maiores exceções, vale destacar, têm sido a da Carta Capital e da Cult (com destaque para Marcia Tiburi), embora os sites dessas revistas não tenham estrutura para cobrir ao vivo, todo dia, constantemente, os acontecimentos. Em termos de crítica social, geralmente os jornais só se salvam devido a seções culturais, que inclusive estão ameaçando se extinguir, e colunistas de qualidade como Francisco Bosco, José Miguel Wisnik, Vladimir Safatle, Eliane Brum. A mídia perde, assim, parte do grau de confiabilidade quando repete incessantemente a criminalidade, a corrupção e a produção abundante de novas medidas antidemocráticas (sem divulgar a contrapartida de trabalhos sociais positivos) e, ao mesmo tempo, coloca-se rapidamente do lado do poder diante de qualquer manifestação, greve e crítica consequente, principalmente não cooptada por partidos políticos e que tocam nos pontos essenciais. Eles mantêm a aparência de enfrentar o sistema, mas na verdade só reforçam o estado invariável de medo e resignação da população diante do terror cotidiano.

Está tão explícito o caráter pacífico, com gritos de não violência iniciados pelos organizadores e repetidos pelos manifestantes, que se tornou ridículo atribuir a responsabilidade dos danos de patrimônio público ao Movimento Passe Livre, principalmente depois do vídeo do policial quebrando o próprio carro e de suspeitas de policiais à paisana. Isso está de fato colocando a polícia numa situação lamentável. Regride toda reflexão da sociedade iniciada com o filme Tropa de Elite, que tentou mostrar o valor e as dificuldades enfrentadas pelo policial frente a um sistema viciado. A culpa maior é dos mandantes, mas iniciativas individuais de abuso de autoridade abundam. Isso infelizmente alimenta o ódio recíproco entre cidadão e policial, embora não seja o policial aquele que deve ser crucificado, por mais responsabilidade que tenha, é o poder. Daqui para a frente, com o crescimento dos diversos grupos, iniciativas violentas de poucos manifestantes podem prejudicar a maioria e servir para justificar o uso de tropas de choque e exército. Por outro lado, os Anonymous, grupo muito influente, misterioso e quase onipresente, que considero o mais avançado de todos, por ser disperso, anônimo (sem lideranças reconhecíveis) e viral (no melhor sentido), sobretudo por reivindicar uma melhoria de vida global, trabalha incessantemente na conscientização de seus simpatizantes para não demonizar o policial e, ao mesmo tempo, para converter os policiais à causa pacifista.

(Revisão e colaboração de Mariana Figueiredo e Juliane Ramalho, orientandas da linha de pesquisa Mística, afeto e modos de viver)

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