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Ano XIII | 18 de junho de 2013 | ISSN 1982-8802

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Movimento Ensaio Livre: dentro e fora da rua

Eduardo Guerreiro B. Losso

prof. de Teoria da Literatura da UFRRJ

2- Afetos e devoções

Ódio é um sentimento que não deve ser alimentado por ninguém.

Contudo, não consegui deixar de sentir – e me coloquei do lado dos jovens indignados – um profundo ódio pela primeira declaração do Arnaldo Jabor, maior do que o que normalmente tenho por colunistas reacionários da Veja, pois ele não combinava com esse tipo de posição. Agora ele se retratou e se consertou, antes tarde do que nunca, e talvez mereça reconsideração. Mas sentimentos exaltados nesse momento imperam, principalmente diante de quem usa a palavra, do alto do espaço “nobre”, para propagar mentiras ideológicas e desqualificar a luta apartidária por melhorias no meio do inferno brasileiro, pois bate de frente com um sentido interno ético sempre presente de não falar e escrever qualquer besteira que presencio todo dia nos meus colegas professores, artistas, amigos e alunos. Somos seres afetivos, e ninguém, muito menos um pesquisador, pode se eximir desse lugar, ainda que não deva se cegar por ele. Lembro-me do poema de Cruz e Souza.

Ó meu ódio, meu ódio majestoso,

Meu ódio santo e puro e benfazejo,

Unge-me a fronte com teu grande beijo,

Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,

Orgulhoso com os seres sem Desejo,

Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo

De sol fecundador e carinhoso.

Ó meu ódio, meu lábaro bendito,

Da minh'alma agitado no infinito,

Através de outros lábaros sagrados.

Ódio são, ódio bom! sê meu escudo

Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,

Das sete torres dos mortais Pecados!

Cito o poema inteiro, pois ele abre a dimensão psico-social da ambiguidade entre amor e ódio: o que de fato está movendo o pacifismo dos estudantes é uma nova forma de amor patriótico, amparado pela solidariedade internacional, que se alimenta da coragem comunitária, experimentada por cada manifestante e com apoio alheio, semelhante a um exército, diante da traição policial, estatal e midiática. Soares observou que há demonstrações heroicas “exaltando os sentimentos e os elevando a uma escala quase espiritual”: isso vale a pena explorar mais a fundo. Lembro de uma frase decisiva de Slavoj Zizek no manifesto de Wall Street: “Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos”. Depois de toda a polêmica entre fundamentalistas e homossexuais no Brasil, terroristas islâmicos e mundo moderno de raiz cristã-judaica, ficamos acostumados a ver o quanto o extremismo religioso tomou o primeiro plano da cena política. Mas ainda falta entender melhor o quanto toda a manifestação política é imbuída de um ethos devocional fundamental que configura não só oposições políticas do tipo amigo-inimigo, mas principalmente a polarização entre fiel e infiel, bem como o sentimento, conforme à razão, de que os manifestantes estão com a verdade e os policiais estão do lado dos fariseus. Não é à toa, repito, que existem vídeos do movimento Anonymous dispostos a converter o policial a sua causa, inclusive com depoimentos dos já convertidos.

Embora tal polarização seja simples e possa ser desconstruída, ela está agora encontrando um grau de legitimidade inédita, devido ao pacificismo e à extensão das reivindicações, que demonstram razoável consciência da totalidade dos entraves para o desenvolvimento social: o efeito alienante do foco midiático no futebol e no carnaval, o descaso pela qualidade de vida (isto é, transporte, moradia, saúde e educação), o aumento calculado e promovido do custo de vida. Ele se coloca num posicionamento de reivindicação bem superior a várias outras alternativas que temos observado ao longo da história recente. Para ser mais explicito, eu me refiro: 1- aos conflitos entre a luta armada dos comunistas e a ditadura; 2- ao recente movimento hip hop da periferia, que mantém uma posição ambígua de contestar a violência policial e o lado de vítima dos criminosos pobres, mas, a partir daí, incitar à violência do cidadão; 3- às lutas das minorias, que certamente possuem inalienável legitimidade, mas particularizam a opressão e, com isso, perigam em deslocar a luta contra os problemas centrais que, inclusive, contribuiriam para elas, penso especialmente na precariedade de uma educação em prol da autonomia crítica. Desde sempre as minorias poderiam se somar e fortalecer a luta geral, mesmo que também não devam deixar de manter a sua independência. Cada causa é legítima e precisa de grupos específicos, mas se todos eles não tiverem uma solidariedade conjunta de princípio para os problemas centrais e globais, mesmo os problemas particulares se enfraquecem.

A legitimidade política do levante atual – em estratégia, estilo e reivindicação – por mais que não deva ser unânime (pois deve dar espaço para o fórum democrático de discussão e dissenso), refresca décadas de mal-entendidos que entravaram uma possível fundamentação convincente de protestos políticos, inibiram adesões maiores e, por tudo isso, foram muito bem exploradas pela vontade dominante de manter o banho-maria de medo e resignação. Portanto, todo o fundo espiritual do movimento está alicerçado não na ilusão religiosa (até porque não é ideologicamente religioso), mas no sentimento da verdade moral da religião, que é parte de seu conteúdo de verdade. Ele ressurge precisamente quando alia ação imediata e razão crítica (nada acadêmica, mas que, por isso mesmo, revela o seu fundo espontâneo, vindo do estado de formação dos estudantes), ambas movidas pela esperança utópica, não programática, mas difusa, imprecisa, negativa.

Também há os humores contrários ao sucesso do movimento. O ceticismo fácil que questiona a unanimidade da MPL tem que dar mais uns bons saltos dialéticos até começar a entender o que está acontecendo. Sim, tudo isso pode ser apropriado por partidos políticos na próxima eleição, mas a questão mais importante agora não é essa, a meu ver. Não se deveria desmerecer conquistas recentes para antecipar as manobras do sistema que eu também sei que virão. Isso aconteceu em 68, aconteceu nas diretas já, e pode acontecer mais uma vez. Porém, uma manifestação forte em torno de uma causa absolutamente legítima, ao mobilizar tanta gente em torno de problemas reais, e fazer isso com consciência e estrutura coletiva para não revidar a truculência intimidadora do vandalismo e baderneira policial, isso não se vê todo dia. É sinal muito claro de que uma indignação emancipatória genuína floresce no meio da lama do sistema e a resignação de todo dia. Em vez de ajustar o foco da consciência para o derrotismo de sempre, vale mais agora ajustar a lucidez para focar quando, muito de vez em quando, acontecimentos reais, mobilizações de valor crítico despontam no meio da pasmaceira de pseudo-acontecimentos, novas leis ditatoriais, guerrinhas conservadoras e violências cotidianas.

Quem não quer encontrar água no meio do deserto, então morra de sede sozinho.

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