Entrevista

Caros leitores,

chegamos ao quinto número da Revista.doc, agora com ISSN e domínio próprio. Por causa de uma série de contratempos, demoramos para lançar esse número, contudo, daqui por diante seremos mais constantes e teremos novas atividades. Como já foi dito, a Revista.doc é uma iniciativa que procura aproveitar o caráter internacional da Internet para o público interessado em teoria cultural, teoria da literatura, filosofia e literatura contemporânea. Foi uma das primeiras revistas de poesia online do Brasil, e hoje é praticamente a única revista de teoria brasileira que mantém a proposta específica de ser um pólo de troca internacional.

Mesmo quando ela iniciou, em papel, a questão da entrada da Internet na literatura e no pensamento estava implícita não só no nome, mas na concepção (o número 1 e 2 estão agora disponíveis online). É impressionante como se evitou pensar a entrada da literatura e da filosofia na era digital e, mesmo hoje, quando contemplamos uma inevitável onipresença cada vez maior, ainda parece que a produção do passado, ou a produção presente com modelos do passado, está sendo digitalizada, mas a visão do que isso implica já para o presente e o futuro ainda é muito incerta, e incerta porque ignorada.

O primeiro verso do segundo Spleen de Flores do Mal de Baudelaire poderia ser dito pela rede, se ela falasse: J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans, “Eu tenho mais recordações do que há em mil anos”, na tradução de Ivan Junqueira, ou, para dar mais coerência e individualidade, “se eu tivesse mil anos”.

Sim, sem dúvida, séculos de Gutemberg não serão superados de imediato. Mas, mesmo para aqueles que só vêem na Internet e na era digital, no caminho da fusão do homem com a máquina, o pior, é bom estar atento, pois o mundo em que vivemos do pós-guerra até o momento está acabando e vai se transformar ainda mais radicalmente em breve. Num espaço aproximado de cinco a dez anos dizem que boa parte da classe média estará com a Internet e o Windows – com todos os seus programas, serviços, bibliotecas, dicionários, mapas, informações, no plano positivo e, no plano negativo, com a indústria cultural, jogos alienantes, todas as mil formas de perder tempo de vida possíveis – conectada ao corpo e à mente full time, com direito a ver a tela em óculos especiais ou lentes de contato e um teclado e um mouse adaptados cada vez mais à nossa anatomia e fisiologia.

Isso significa que esse editorial será lido (ou ouvido, por um programa de leitura) num futuro próximo enquanto se estiver andando, nadando, fazendo compras. Acredito que antes de ambientes virtuais se tornarem usuais, o ambiente natural será tomado pelo mundo virtual. Num certo sentido, tudo isso já pode acontecer, e até já está acontecendo, mas parece que ninguém está se dando conta do grau do absurdo e do fantástico já existente. Assim como Nietzsche imaginou um louco gritando: “Deus está morto, e fomos nós que o matamos”, sou obrigado a imaginar, um pouco inspirado em Baudrillard, mesmo que eu não concorde com ele, tal louco gritar, “a realidade está morrendo, e somos nós que...”.

Pais e mães de filhos recentemente nascidos têm a consciência de que seus filhos estarão intimamente fundidos à máquina e que serão seres completamente diferentes do que até agora tem sido o homem? A fragilidade do homem que até hoje as gerações pré-internet conheceram está cada vez maior, e poderia dizer o que o eu lírico de Caio Meira, num poema inédito publicado nessa edição, escreve: “Minha vida, a partir desse ponto, se torna/ tão tênue quanto o fio da minha espada”. A fronteira entre o real e o virtual está cada vez mais tão tênue quanto o fio que pode nos matar e nos fazer matar. A própria posse de objetos, de terras, imóveis, de bens materiais é algo que será cada vez mais dominado pelos “míseros” 1% da população mundial que realmente dominam o mundo, e para todo o resto restará apenas máquinas digitais cada vez menores, citando mais uma vez o Caio dessa edição, “Tudo o que temos cabe numa caixa de sapatos”.

Não pensem que sou um entusiasta tecnomaníaco, nem um pessimista nostálgico (como, por vezes, Baudrillard parece ser, mesmo que esforce pelo contrário), nem afirmo que a realidade desaparecerá, antes, que a realidade mostrará cada vez mais, com o avanço do mundo virtual, suas potencialidades ocultas. A possibilidade do homem se evadir e esquecer de sua própria individualidade, como Adorno diagnosticou, será tão extremada quanto a possibilidade de ele superar a si mesmo e dar saltos que Nietzsche tanto gostaria de presenciar.

Pensei em tudo isso lendo dois de nossos destaques dessa edição: Caio, que já citei, um dos grandes poetas de sua geração, e Carlos Emílio, provavelmente o maior dos escritores brasileiros entre aqueles que não são merecidamente publicados e reconhecidos. O conto de Emílio, “Goa”, explora o momento em que o eu ainda não se reuniu e mantém-se disperso, fragmentado no meio de suas circunrevoluções, observando de fora o seu próprio advento unificador que, contudo, não ocorre, ambicionando, em seguida, uma reunião utópico-absoluta com o todo. É mais ou menos isso que se passa na Internet: estamos sendo fragmentados e plurificados, e antes de tentarmos organizar tal “estado de bagunça transcendente”, como quer Murilo Mendes, o indivíduo já se funde no oceano de comunicação e informação virtual. No dia em que os neurônios estiverem recebendo e trazendo bits para nanorobôs e a era da “singularidade” decretar um novo fim da história hegeliano, talvez o maior de todos, aí saberemos que tipo de relação entre o eu e o todo será a efetiva.

O destaque da edição está para a entrevista que conseguimos com um dos maiores filósofos da Alemanha, um verdadeiro renovador da teoria crítica, Prof. Christoph Türcke. Autor de mais de quinze livros publicados, Prof. Türcke nos oferece uma rica contribuição para pensarmos hoje o papel da teoria e filosofia contemporânea em relação à religião e teologia hoje, além de suas implicações políticas e psicológicas.

Aproveito para lembrar que sairá o novo livro do Prof. Türcke em português, A sociedade excitada, previsto para o final do ano pela Editora Unicamp, com a tradução de professores de peso, tendo já larga experiência com a teoria crítica adorniana: Fábio Durão, Antonio Zuin e Francisco Fontanella. Nossa entrevista é nesse caso uma divulgação prévia, já aproveitando a comemoração de 60 anos de aniversário do professor, que será, em agosto, ocasião para o lançamento em Leipzig de um livro comemorativo sobre sua obra.

Finalmente, estamos já recebendo material para o próximo número, que sairá em torno de Agosto-Outubro e tem como data limite de entrega dia 10 de Julho.

Eduardo Guerreiro B. Losso

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