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Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

Renato Rezende

Nasceu em São Paulo em 1964. Em 1989, formou-se em literatura espanhola pela Universidade de Massachusetts, Boston, EUA, defendendo tese sobre a poeta porto-riquenha Julia de Burgos. Tradutor de livros e artigos de história, filosofia e arte contemporânea, além de prosa e poesia, entre outros tópicos. Poeta, é autor de Aura (1997), Passeio (2001) e Ímpar (2005), entre outros, recebendo a Bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obra em formação em 1997, e o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional para o melhor livro de poesia em2005. Também é autor de Memórias e curiosidades do bairro de Laranjeiras (1999), Avenida Rio Branco – um projeto de futuro: 100 anos (2002) e Praça Tiradentes: do império às origens da cultura popular (2003).

Renato Rezende wurde 1964 in São Paulo geboren. 1989 hat er zur spanische Literatur an der University of Massachusetts in Boston studiert. Seine Diplomarbeit handelte von Julia de Burgos, eine puertoricanische Dichterin. Er ist Übersetzer von Bücher und Artikel über Gechichte, Philosophie, zeitgenössische Kunst und Literatur. Er ist Dichter und Autor der folgenden Bücher: Aura (1997), Passeio (Spaziergang) (2001) e Ímpar (Ungerade, Einzigartig)(2005), unter anderen. Er hat den Preis Alphonsus de Guimaraens der Nationalen Bibliothek, Kategorie bestes Buch der Poesie 2005.

Born in São Paulo, Brazil, in 1964, Renato Rezende has earned a B.A degree from the University of Massachusetts, Boston, where he lived for almost ten years. A poet, writer and translator mainly of poetry, Philosophy and Contemporary Art. Some of his books poetry books include Aura (1997), Asa (1999), Leaves of Paradise (2000), Passeio (2001) and Ímpar (2005), the recipient of the National Library Award for best book of poetry, 2005.

ABELHAS

Para Mariana Ianelli

Ele pensa que existe, mas no fundo, quem existe sou apenas eu. Sem saber quem é, ele rodopia sem parar pelo mundo. Como uma borboleta, como um beija-flor, sem núcleo, sem centro, vazio-oco. Na caverna dele estou eu, mas ele não me vê, escondida que estou em luz. Por isso ele gira estonteante, amando tudo o que sente, o que vê, o que toca. Eu o fiz para isso mesmo. Para ele me amar. Um dia eu me revelo e ele me descobre.

Ele é apenas uma sombra, no fundo, seu medo tem fundamento. Intui que não existe, sabe que vai morrer. Quem existe sou eu: não mais a Morte, mas a Bem-Aventurança.

A pessoa viva deseja. A morta ama.

Eu sou sempre-viva porque todos os dias me despedaço por ele. Todos os dias bebo meu próprio sangue por ele. Você se sacrificaria por mim?

Mais cedo ou mais tarde, tem um dia em que o teto cai, a gente rola para dentro do próprio ralo. Minha amiga: eu fico aqui, de boca aberta, esperando, torcendo. Você terá coragem de passar por esse ralo? Você vem jorrar em minha boca?

Eu não escrevo poemas; eu sou um poema. Eu escrevo pessoas. Por exemplo, agora, estou escrevendo você.

Enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa. Sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo. Você é como um molde de cera, um equilíbrio de passagem. Assim que esvaziar-se toda em palavra e seu frágil molde derreter pelo meu fogo, vai perceber surpresa que em seu lugar você agora é: ouro. Vida nova. Vida viva. Ouro aéreo: luz: o universo iluminado. Vai se sentir virada do avesso. Grata: esse trabalho quem faz sou eu.

Mas é preciso que você queira. É preciso que você me deseje obscenamente. Venha, minha amiga, sejamos cachorras.

Não se assuste. Minha função é por a mão na sua caixa de marimbondos. Libertar suas abelhas vermelhas, ferozes. Você multiplicada, dividida, em milhões de abelhas douradas pelo espaço aberto. Você suportará seu próprio zumbir?

Eu posso perfeitamente mastigar abelhas vivas. Quer ver?

POEMAS PARA A DEUSA DA MORTE

As indicações vêm aos poucos.
Há alguns meses, passando sobre um bueiro ao atravessar uma rua no centro, senti um forte cheiro de carniça—e surpreendeu-me achá-lo agradável.

Depois, ao levantar de uma cadeira, senti uma súbita e inesperada dor no joelho. A dor, pensei imediatamente, é o que nos amarra ao mundo.

Primeira premonição da Morte

O homem que eu fui
E a mulher que eu fui;
E os homens que eu não fui
E as mulheres que eu não fui;
Somam-se agora ao meu corpo.

Ninguém, nem mesmo
a misteriosa mulher
de cabeleira dourada, olhos esquivos
pernas perfeitas, brancas, altas ancas
metida num vestido primaveril
que desafia meus instintos de homem toda manhã.
Não, ninguém. Ninguém. Nada. Nada, a não ser Ela.

Incontáveis vidas fui fêmea, mulher.
E agora tenho um falo: mulher-macho.
Não há nada que se compara. É o fim.

Dai-me um corpo humano, e eu conquistarei o universo.
Um corpo humano é um punhado de matéria. Apenas
Um punhado de matéria, e eu conquistarei o universo. Pó de estrelas.

Num coito, na cama, em pé, contra a parede, como for,
um é macho, outro é fêmea. Um recebe, outro penetra.
Um goza cedendo, outro goza vencendo. Ou assim pensam.
Mas, se Ela retira a máscara, ambos são dois seres iguais, não
Haveria possibilidade de desejo; nem espelho. Só Ela é visível.

Uma mulher entra na roda cantando
o samba-enredo da escola de samba.

Mesmo se sua voz repercutisse
solitária e infinitamente
no silêncio profundo do cosmos
o que significaria?

No entanto, a dona dessa voz, desse corpo
que bebe e baila, tem duas filhas
que a ouviram (um vagido único) antes de tudo
no vão escuro
do início de suas vidas visíveis.

A prometida; não havia dúvida nenhuma: era ela.
Não me reconheceu, como eu sabia
que não me reconheceria. Mas sorriu
com sua boca de pérolas, e seus olhos brilharam.
Os meus olhos brilharam também. Seríamos
extremamente felizes, caso eu, inexplicavelmente
não a deixasse sair pela porta, um pouco aturdida.

A morte, obviamente, não existe. No entanto, é a nossa maior esperança.
A boca que nos devora—desejamo ser devorados!—que nos mastiga e vomita.
O tempo, infinito, é seu ácido; cada um de nós, finitos, é sua glória.
Poucos são os escolhidos, e se sentam ao seu lado, contemplando com distância e descaso
o rio de carne que rola.
Poucos se tornam amantes, poucos se tornam a morte.

Na porta do templo, lavrada em prata, eras três kalis
no meio do deserto, em meio dos cadáveres, a maior delas, no centro
embriagada cortara a própria cabeça, com sua alfanje-falo,
e o sangue jorrava para o alto, para os lados; as outras duas
bocas levantadas bebiam o que esguichava do pescoço destampado;
mas também bebia, ávida, a própria cabeça, que carregava nos braços.

[OCEANO]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:

Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Diz: Eu não quero ir a lugar algum.

Sou como um cão—se for preciso, cavo.

Aceitar a vida (que escorre) e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo a todos.

Esse corpo nunca mais.

Chamas de luz solar voltando ao sol. Isso somos. Sou.

Radha sentia tamanha devoção por Krishna que não pensava em mais nada. Por fim ela se tornou tão imersa em seu amor por Krishna que se transformou em Krishna. E então começou a perguntar aos seus amigos, “Onde está Radha?”

Onde está Mariana?

(Falando sério, depois te conto como estou, na verdade, nem sei direito; sem saber o que quero, sem saber o que fazer ou mesmo se devo fazer alguma coisa.... muito esvaziado, ou esperando que as ondas de amor me preencham lentamente:

esse amor deve explodir em mim
o sol deve explodir em mim

a vida toda em mim

O que eu sei é que eu preciso ser forte. Forte como um touro. Para suportar esse coice de duas patas no peito. Coice duplo. Para ter a vida explodindo em mim. Ranger os dentes. É preciso ser forte para ser tudo e todos—ó amor insuportável!

Vou ser quem eu Sou e pronto

O PESO MAIS PESADO

A inserção no mundo, o encaixamento, não é, como eu pensei, uma negociação como o mundo, um embate com a linguagem, um reconhecimento do ‘outro’, mas sim uma conquista interior. Seja eu um o rei ou um mendigo (somos todos a mesma coisa), o que importa não é o nome ou a forma, mas sim a ‘propriedade’, o ‘peso’, interior: quero agora todo o peso do Ser. Há de existir uma luz densa, pesada. Quero o âmago, o buraco negro densíssimo do meu universo vasto. Quero ser a coisa mais nuclear, pesada, imóvel do universo, quero a raiz da raiz, o fundo mais fundo, o negro mais negro, o duro mais duro, o peso mais pesado, a matéria mais densa, o supra-sumo da fisicalidade; e que isso seja, ao mesmo tempo, pura luz, pura leveza, Amor puro.

LAST NIGHT WHILE SLEEPING

Last night, while sleeping
I was still conscious,
in a nest of sweetness.

(I didn't remember or know
anything or anyone).
It proved to me once more
that love is really inside

and can only be realized
when one stops
the dream of his own life.

THE STORY OF LILA IN THE YOGA VASISTHA

Immersed in this story I suddenly saw
the whole world as a tiny point of light,
pure mental energy, devoid
of space and time.

This brilliant point – the whole universe,
could fit in a millionth part of my fingertip.
I was in awe, and for the longest time
gazed at this light, unable to read.

And indeed, in the last page, the sage said
that Lila's story removes from our mind
the last, the smallest remnant of our belief
in whatever we usually think or perceive.

ANOTHER ODYSSEY

When Dawn with her fingertips of rose
broke the day after Odysseus's return to his hall
bathing the whole world with golden light:
the chamber where the patient hero lay with his wife
finally asleep in her soft white arms, and also
the open marbled halls of Olympus, where
the gods and goddesses live eternally in bliss;
Athena, the gray-eyed, opened her eyes first
and seeing down below the royal couple so
sweetly embraced, took pity on them, and decided
to erase from time the 20 years he suffered in exile.

When Dawn with her fingertips of rose
awoke with her gentle rays the sleeping king
for yet another day of a long life lived in Ithaka,
Odysseus, kissing his wife's hands softly, rose
and vaguely remembered a dream of a war
and many years of salty sea, under a blazing sun,
in which he was lost, and upon his return
he and his son, only a baby now, in his own hall
killed his mistress' suitors: his life-long friends' sons.

He, Odysseus, the hero of no war and no adventure,
pondered his dream, and realized, wrongly,
that he had done nothing
and now was afraid of growing old.

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