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Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

Marcelo Diniz

Nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro. É poeta, letrista, professor e doutorando em Ciências da Literatura-Semiologia pela UFRJ. Autor do livro Trecho, Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002 e Cosmologia, Rio de Janeiro: 7letras, 2004. É letrista de Fred Martins, Lucina e Tânia Bicalho.

Marcelo Dinizwurde in Niterói, Rio de Janeiro, geboren. Er ist Dichter, Texter, Lehrer und Doktorand der Literaturwissenschaft-Semiologie an der UFRJ. Folgende die Bücher veröffentlicht: Trecho (Abschnitt), Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002 und Cosmologia (Kosmologie), Rio de Janeiro: 7letras, 2004. Er ist Texter von Fred Martins, Lucina und Tânia Bicalho.

Marcelo Diniz

Sim, de podres

A Ronald Polito

1

Esta lama com febre, se despedida

de lembrança, de espera, esta entranha

de húmus que ao húmus estranha,

estes tubos de incômodos, intestinos

de pânico e pressão, enfim, despidos

de sintomas, seriam ainda soma?

2

Não, despido, nada, nem nirvana, nem

mesmo o sono de pedra muda na precária

contingência do próprio peso, nem alma

que, sem corpo, nem vento que se arranca,

sem âncora, nem barca, não se iluda,

nu de tudo, nada sobra ou sopra.

3

Na carne ainda acesa, a mosca pousa,

deposita, inciso, berne, cerne que das linfas

ainda frescas suga, primário, alimento

– pensamento, isto ainda sem sílaba,

sem membros, sem, portanto, vôo que

delivre o que, latente, ainda é ovo e sono?

4

Sim, proteico, pequeno coração de asa,

sim, o pensamento já no que ainda é

simples batimento, sim, ainda simples

e já enxame, celuloso, legião latente

que, em breve, de novo mosca livre,

de volta ao céu dos homens que sempre

ressende a açúcar de sexo ou, sim, de podres.

5

Como, deste desterro de vozes, corpo morto,

vento sem corda, devolvido, enfim, ao pó,

ao póstumo, exilado do que acumulara,

pode ainda, ainda que não aparente saber,

sentir, gozar, espalhar palha, chama, como,

desta espuma desfeita, há quem sorva,

a quem serve, como, então, ainda?

6

Não, nada póstumo, aposte seus restos nisto,

ainda que podres, justo se podres, sim, tudo,

vôo, moscas, pus e o mais, pois ainda e sempre

serve, converte-se, viva, a morte, temor dos mais

banais que, breve, não se iluda, não passa, não há

quem prove o contrário, de mero ponto de vista,

que logo cega, portanto, sim, que logo passa.

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