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Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

Hugo Langone

É graduando em Literaturas pela UFRJ. Atualmente realiza trabalhos para diversas editoras e, desde 2005, vem estudando a beat generation e suas projeções na sociedade contemporânea.

Hugo Langone studiert Literatur an der UFRJ. Er arbeitet für einige Verlage und seit 2005 studiert er ”beat generation und seine Projektionen in der zeitgenössische Gesellschaft“.

Hugo Langone studies Literature in UFRJ. Nowadays, he works for several publishing houses and, since 2005, has been studying the beat generation and its projection in the contemporary society.

Poema

estou andando, cabíria, estou andando setecentos minutos

com o sol nu fazendo amarelo minhas veias
grudadas entre peles invisíveis descolando
camada por camada enquanto

de cócoras eu te toco, cabíria, e vejo teu sangue escorrendo entre as pernas

e o sangue que eu levo na boca é teu e escorre
dedo por dedo unha por unha, vermelho
ainda quando é sangue + a língua rosa
que se afoga de qualquer forma de qualquer jeito
perdido entre o escuro e as costelas
no espaço que se fez entre as paredes do seu quarto
e a sua madrugada
de vertigem quando todas as luzes entram pela janela
esperando o sol nu e vivo que me amarela as veias.

sujo, sujo setecentas vezes andando às três horas da manha entre prostitutas vômitos &
o céu preto descendo sua cabeça pensando em como Copacabana
é suja hoje & como eu posso ser sujo como o bairro e suas cinzas
às três horas da manha,
um menino sujo, eu,
em Copacabana suja, quase um homem dizendo adeus aos ônibus,
adeus, aos ônibus e as cinzas de Copacabana, adeus
vômitos & prostitutas & Copacabana,
adeus menino, o futuro homem, agora, curvem-se ao homem
travestis & suas picas e peitos
curvem-se ao homem agora & curvem-se mais & adeus, picas e peitos,
adeus, pra tudo adeus, o homem-adeus, voando &
outros homens porcos com seus corpos recém prostituídos tomados pelas cinzas de Copacabana morta sob o céu preto &
minha cabeça de homem com esperança de homem, etilicamente homem,
tudo menos pêlos de homem na cara e nos peitos,
morrendo a cada passo & esmagado a cada passo pelo céu preto quase claro,
o homem, eu, vendo luz e montanhas &
o céu quase claro agora matando aos poucos Copacabana, morrendo
morrendo morrendo & se vai Copacabana morta e esmagada entre meus passos &
o céu que eu não sei mais a cor &
adeus, adeus Copacabana & seu homem & as picas peitos e vômitos
do bairro de cinzas.

vazio -
me escrevo interminável:
dormente, filho-deus,
o fundo, quando passado
claro e extenso.
Agônico. Gozo ácido
e me perco demorado
preso e exposto ao avesso das alturas.

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