Revista.doc

Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

Editorial

Caros leitores,

chegamos a mais um número da Revista.doc. Até aqui, desde a admirável iniciativa de André Luiz Pinto, ela tem mostrado algo da produção da poesia contemporânea brasileira, com poetas novos, consagrados e ensaios críticos. Por isso a .doc participa a sua maneira de uma saudável variedade de revistas sobre poesia que se iniciou no início dos anos 90 e tem apresentado diversas vertentes da criação poética. Com o tempo, a .doc tem se voltado mais pela teoria da literatura e pela filosofia, especialmente a estética, no sentido mesmo em que essas duas áreas de pesquisa refletem sobre literatura e arte e até participam dela dentro de suas especificidades.

Eu e André Luiz Pinto participamos da mesa "poesia em revista" no dia 13 de maio de 2004 na faculdade de letras da UFRJ ao lado de Sérgio Cohn, Paulo Ferraz e Carlito Azevedo. Também organizei uma mesa da revista .doc na UFRJ, onde eu e o André convidamos o prof. Ítalo Moriconi e prof. André Gardel. Nesse momento, toda a discussão girou em torno da relação entre poesia e estudos literários. O prof. Moriconi colocou questões interessantes e que foram para mim entusiasmantes. Por isso, vale dar aqui alguns esclarecimentos retomando o que foi discutido na ocasião.

O que gostaríamos de contribuir dentro de nosso específico horizonte de possibilidade e pretendemos ir estabelecendo aos poucos é um questionamento da prática crítica e analítica a partir da discussão teórica. Ao não se demorar na teoria, a crítica pode tornar-se cega e por demais rígida. No fundo, estamos sempre nos defrontando com a resistência à teoria mesmo lá onde ela seria mais necessária, até mesmo dentro da própria teoria, quando ela não é suficientemente crítica para consigo mesma. Logo, é sempre indispensável retomar a ligação inseparável entre teoria e crítica. O cuidado teórico fornece para nós antes de mais nada a qualidade ética da atividade crítica.

Gostaríamos de experimentar a intensidade da literatura e do pensamento. Tal experiência, como tenho refletido ultimamente, num primeiro momento, se assemelha a uma certa mística secularizada. Mas uma experiência mística não se faz - seja em contextos religiosos, seja num contexto laico e moderno, como é o caso -, por sua vez, sem uma ascese secularizada. Logo, a ascese da forma, na poesia, parece supor uma ascese de reflexão (teorização) da relação da forma com o pensamento, de modo explícito ou implícito, conforme o poeta, o escritor ou o pensador. Por causa disso, aos poucos fomos sentindo necessidade de afinar o discurso crítico com a elaboração do pensamento, em outras palavras, a musa da poesia foi nos levando para o estudo da estética e da teoria contemporânea.

Preciso ser agora mais... preciso. Não se trata de misturar irresponsavelmente uma coisa com a outra, nem de diminuir o desejo pela poesia, e sim dar mais espaço para a teoria e a filosofia como fator de intensificação da experiência estética, já que tal experiência é essencialmente reflexiva. Assim, esperamos evitar ao máximo o uso da crítica como justificativa de posicionamentos políticos estanques do juízo ético e estético, que se configuram por vezes como substratos ideológicos no meio da praxis crítica. Esse é um dos perigos que rondam a resistência à teoria. Aqui, ao contrário, a proposta é uma aberta procura entusiástica do trabalho e do prazer teórico, que só fortalece e enriquece a imaginação estética.

Conseqüentemente, deixamos de entender a .doc como uma revista direcionada predominantemente para a poesia, daí abrirmos ainda mais espaço para ensaios e discussões e nos empenharmos nesse sentido tanto quanto na publicação de textos literários. A .doc é uma revista universitária, mas mantendo em certa medida a liberdade do poeta de poder, dentro do discurso universitário, não se solidificar em posições rígidas de forma e conteúdo. A dupla atividade da análise da obra de arte e da discussão teórica, ao refletir uma sobre a outra, serve precisamente para uma deslocar, despertar, avivar, animar, movimentar a outra procurando abrir modestos espaços de invenção, os quais clamam ansiosos por uma visita nossa.

No momento estou com uma bolsa de doutorado em Leipzig, na Alemanha. Aproveitando minha estadia por aqui, apresento ao público de língua portuguesa uma entrevista com a Professora de história da estética Uta Kösser em português e em alemão. A partir deste número, gostaríamos de aproveitar mais o caráter internacional da internet e multiplicar as línguas da revista. O ensaio de Anna-Louise Kratzsch e Thomas Dworschak se encontram em inglês, o de Thomas Dworschak está disponível também em alemão e estamos aceitando textos em inglês, alemão, espanhol e francês. No próximo número, provavelmente teremos mais colaborações nesse sentido. Gostaríamos também de publicar recensões e divulgação de livros, dissertações e teses.

Além disso, há projetos de publicação de livro de ensaios em torno da estética e teoria da literatura.

Agradeço ao DAAD e à CAPES pela oportunidade de estar na Alemanha podendo colaborar para o contato universitário entre Brasil e Alemanha e agradecemos o apoio imprescindível do departamento de ciência da literatura da UFRJ - especialmente ao Prof. Luiz Edmundo Bouças, Prof. Ana Alencar, Prof. João Camillo Penna, Prof. Alberto Pucheu, Prof. Vera Lins - Lea Bayer, Cornelia Sieber, Prof. Christoph Türcke, e a todos os participantes que estão colaborando.

Contatos para sugestões, publicações ou parcerias: revistapontodoc@gmail.com

Eduardo Guerreiro B. Losso

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