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Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

Diana Araujo Pereira

É poeta, professora de literatura espanhola e doutoranda em letras neolatinas na UFRJ.

Ist Dichterin, Leherin für spanische Literatur und Doktorand der neulateinischen Literatur an der UFRJ.

Poemas do LIVRO DO MEDO

I

Somos o ímã centenário,
a imagem sólida que atrai o espaço.
Como faca afiada na terra,
em busca do sangue dos astros.
No fundo acredito no medo,
e no enterro das coisas tardias.
A volta é o desafio do dia,
a luz que acerta a estrada.

***

II

O nó da garganta
que prende o sapato.
Semeadura rachada
na pele do rosto.
O tempo enaltece o castigo,
e a vida serpenteia ao lado.

***

III

Pendendo do vento
o presente assola.
O olhar dispara outro continente.

Do lado de fora o sussurro das horas,
e a noite cravando seus dentes.

***

IV

De onde o anseio e o cheiro de dentro?
De onde o sendeiro e o som que ensurdece?
De onde o sabor e o amargo retorno,
que brinca em volta e por vezes se esquece?
De onde o desejo de faca amolada
que desata e resgata,
dissolve e tece?
De onde o anseio e o peito arfante
que come e bebe e dorme e levanta?
De onde a dor que aguda o sentido,
e devora olhos e paisagem?
De onde o peso e a culpa e o medo,
de onde o sonho de voltar para casa?

***

V

En torno a la luna
nudo de carne y viento
soplo las palabras
en la oscuridad.

Encima del muro el cotidiano vacío,
la cóncava noche
que se deshace de vida
y se ahoga en el aire.

*

Em torno da lua
nó de carne e vento
sopro as palavras
na escuridão.

Encima do muro
o cotidiano vazio,
a côncava noite
que se desfaz de vida
e se afoga no ar.

VI

Guardo o sorriso dos dentes claros
como a nuvem passeia em cima.
Todas as manhãs são facilmente gastas.
As tardes entram pela porta adentro,
enquanto as horas rastejam seus passos.

***

VII

Uma tonelada de anos
presos no ventre.
Ainda sobressalta a morte
intermitente.

***

VIII

Sueño pedazos de días
que cuelgan al ras de la risa.
A veces se entremiran y callan
tras la página blanca,
hacia la nada escrita.

*

Sonho pedaços de dias
pendurados rentes ao riso.
Às vezes se entreolham e calam
atrás da página branca,
em direção ao nada escrito.

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