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Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

Antônio Cícero

É poeta e ensaísta. Publicações principais: O mundo desde o fim (sobre o conceito de modernidade), Guardar: Poemas escolhidos, A cidade e os livros, Finalidades sem fim: Ensaios sobre poesia e arte. Organizador, junto com Waly Salomão, da coletânea de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo. Organizou uma série de ciclo de conferências com a participação de Peter Sloterdijk, Hans-Magnus Enzensberger e Richard Rorty que levou a esse livro. Caetano escreveu sobre esse último livro em Verdade tropical, p. 448, que se trata de “um dos maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil”, além de afirmar que (p. 449) Cícero teve “papel decisivo na organização do meu pensamento”.

Homepage do autor: www2.uol.com.br/antoniocicero/

Geb. 1945, Dichter und Philosoph, lebt in Rio de Janeiro. Wichtigste Veröffentlichungen: O mundo desde o fim: Sobre o conceito de modernidade (Die Welt nach ihrem Ende. Über den Begriff der Modernität), Rio, 1995; Guardar: Poemas escolhidos (Bewahren. Ausgewählte Gedichte), Rio, 1996; A cidade e os livros (Die Stadt und die Bücher – Gedichte), Rio, 2002; Finalidades sem fim: Ensaios sobre poesia e arte (Zweckmässigkeiten ohne Zweck. Aufsätze zur Dichtung und zur Kunst), São Paulo, 2005. Er ist auch Herausgeber mit Waly Salomão des Sammelbandes O relativismo enquanto visão do mundo (Der Relativismus als Weltbild), Rio, 1994. Das Buch war das Ergebnis des Kongresses mit der Teilnahme von Peter Sloterdijk, Hans-Magnus Enzensberger und Richard Rorty. Cícero ist auch Musiktexter von verschiedenen Popstars wie Caetano Veloso, Marisa Monte, João Bosco und Lulu Santos, unter anderen. In Bezug auf dem Buch Die Welt nach ihrem Ende, hat Caetano Veloso in Verdade trapical (tropikaliche Wahrheit) geschrieben: es handelt um von „einem der größeren intellektuellen Ereignisse der Jahrtausendwende in Brasilien“, s. 448. Er sagt auch, dass Cícero ”eine entscheidende Rolle bei der Organisation meines Gedankens spielte“, s. 449.

Homepage: www2.uol.com.br/antoniocicero/

O POETA CEGO

Eis o poeta cego.

Abandonou-o seu ego.

Abandonou-o seu ser.

Por nada ser ele verseja.

Bem antes do amanhecer

Em seus versos talvez se veja

Diverso de tudo o que seja

Tudo que almeja ser.

FALAR E DIZER

a Waly Salomão

Não é possível que portentos não tenham ocorrido

Ou visões ominosas e graves profecias

Quando nasci.

Então nasce o chamado

Herdeiro das superfícies e das profundezas então

Desponta o sol

E não estremunha aterrado o mundo?

Assim à idade da razão

Vazei os olhos cegos dos arúspices e,

Fazendo rasos seus templos devolutos,

Desde então eu designo no universo vão

As coisas e as palavras plenas.

Com elas

Recôndito e radiante ao sopro dos tempos

Falo e digo

Dito e decoro

O cáos arreganhado a receber-me incontinente.

SPRECHEN UND SAGEN

Wunder können unmöglich ausgeblieben sein

Oder befremdliche Visionen und ernste Weisagungen

Als ich geboren wurde.

Da wird der berufene

Erbe der Oberfläche und der Tiefen geboren, da

Geht die Sonne auf

Und es erbebt nicht zitternd die Erde?

In reifem Alter

Riß ich darum der Wahrsager blinde Augen heraus

Machte ihre leeren Tempel dem Boden gleich,

Benenne seither im eitlen Universum

Vollständig Dinge und Worte.

Allein

durch sie

verborgen und strahlend im Atem der Zeiten,

Spreche und sage ich

Diktiere und behalte ich

das zähnefletschende Chaos, das mich gierig empfängt.

(Übersetzung aus dem brasilianischen Portugiesisch von Maralde Meyer-Minnemann)

ÁGUA PERRIER

Não quero mudar você

nem mostrar novos mundos

pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé

que não só já viu quase tudo

mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho

alimentar seu tédio.

Para tanto, exponho

a minha admiração.

Você em troca cede o

seu olhar sem sonhos

à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,

esse olhar

meio escudo

que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

EIN PERRIER

Ich will dich nicht verändern

noch dir neue Welten zeigen

denn mich, mein Schatz, belustigen sogar Clichés.

Ich liebe diesen blasierten Blick,

der nicht nur schon fast alles gesehen hat

sondern alles, bevor es gesehen wird, bereits für schon gesehen hält.,

Ich möchte nur

deine Langeweile unterhalten.

Daher breite ich

meine Bewunderung aus:

Du weichst dafür

mit deinem Blick ohne Träume

meiner Betrachtung aus:

Ich liebe, wer weiß warum,

diesen Blick,

der halb abwehrend

anstelle meines starken Alkohols ein Perrier erbittet.

(Übersetzung aus dem brasilianischen Portugiesisch von Maralde Meyer-Minnemann)

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

BEWAHREN

Ein Ding bewahren heißt nicht, es zu verstecken oder einzuschließen.

In einem Safe bewahrt man nichts.

In einem Safe verliert man es nur aus den Augen.

Ein Ding bewahren heißt, es zu betrachten, es anzuschauen, es anzublicken um es zu bewundern, will sagen, es zu beleuchten oder von ihm erleuchtet zu werden.

Ein Ding bewahren heißt, es zu bewachen, will sagen, um seinetwillen eine Nachtwache zu halten, will heißen, seinetwegen zu wachen, will heißen, seinetwegen wach zu bleiben.

Deshalb bewahrt man eher den Flug eines Vogels

als einen Vogel, der nicht fliegt.

Deshalb schreibt man, spricht man, deshalb publiziert man, deshalb erklärt und deklamiert man ein Gedicht:

Um es zu bewahren:

Damit es seinerseits bewahrt, was es bewahrt:

Bewahrt, was vom Gedicht bewahrt werden soll:

Deshalb wird das Gedicht veröffentlicht:

Weil es bewahrt, was man bewahren will.

(Übersetzung aus dem brasilianischen Portugiesisch von Maralde Meyer-Minnemann)

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