Revista.doc

Ano VIII | nº 4 | Julho/Dezembro 2007 | Publicação Semestral

André Luiz Pinto

Nasceu no Rio de Janeiro. Graduou-se em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ, cursando atualmente o mestrado em Filosofia pela mesma universidade, tendo como área de pesquisa, filosofia da ciência e teoria do conhecimento, na qual desenvolve dissertação sobre a obra de Emmanuel Lévinas no que diz respeito ao papel da sensibilidade enquanto ponto de ruptura da ontologia fenomenológica e reafirmação da metafísica. Publica poemas e ensaios há quase dez anos em revistas especializadas e jornais de grande circulação, tais como o JB e a Folha de São Paulo. Edita, com Eduardo Guerreiro, desde 2000, a revista .doc, integrada, desde 2003, ao programa de pós-graduação de Ciência da literatura da UFRJ. Publicou até o momento três livros: Flor à margem, 1999, edição independente, Rio de Janeiro, Primeiro de abril, 2004, Editora Hedra Ltda, São Paulo e ISTO, Espectro Editorial, Belo Horizonte, 2005.

André Luiz Pinto wurde 1975 im Stadtteil Vila Isabel in Rio de Janeiro geboren. Er studierte Krankenpflege und Geburtshilfe an der Uni-Rio und war drei Jahre als Arzt tätig. Danach hat er Philosophie an der UERJ studiert. Er macht heute einen Master in Erkenntnistheorie an der UERJ und schreibt eine Masterdissertation über das Werk Emmanuel Lévinas’. Das Thema der Dissertation ist die Empfindsamkeit als Bruchgrenze der phenomenologischen Ontologie und Wiederbehauptung der Metaphysik. Seit 10 Jahren hat er Gedichte und Essays in der Fachbereichszeitschrift und Zeitungen wie Jornal do Brasil und Folha de São Paulo veröffentlicht. Seit 2000 ist er zusammen mit Eduardo Guerreiro Herausgeber der .doc Zeitschrift. Bis jetzt hat er drei Bücher veröffentlicht: Primeiro de abril, (Erster April) 2004, Hedra Verlag, São Paulo; ISTO, (DIES) Espectro Verlag, Belo Horizonte, 2005 und Flor à margem, (Blume am Rand) 1999, Verlag des Autors, Rio de Janeiro.

André Luiz Pinto, from Rio de Janeiro, he’s poet, philosofy’s teacher and nursing. He is an editor for the literary magazine .doc, and the author of Flor à margem (1999), Isto (2005) and Primeiro de Abril (2004).

4POEMAS DE ANDRÉ LUIZ PINTO

I

Lembro do cheiro de morte pelo campo.
O campo carregava as várzeas. As várzeas carregavam
os rios; os rios iam pelo meu caminho.
No meu caminho estavam os bois. Os bois só mugem.
Deixo na frieira do tempo seu muge esquecido.
O mundo girava sozinho na corda de um eixo
invisível.

I remember a smell of death on the fields.
The fields cradled marshes. The marshes cradled
rivers; the rivers went my way.
There were steers on my way. Steers can only low.
I leave that lowing in time’s corners.
The world swirls by itself on the chord
of its invisible axis.

(Translated from the Portuguese by Anna Ross and Flávia Rocha)

II

A queda do mar anula
a idéia de chuva.
Águas invadem a seca
Tísica mensagem do espelho azul,
naufragam a certeza
do chão, o pão
na moenda que moem as mãos
dos que moem açúcar
dos que colhem os dedos nos laranjais.
A chuva retrai o senso
de coisa perdida.
A chuva não perdoa,
permanece o cristal
de sangue na tina.
Um corpo vem conhecer
nos bueiros
o cheiro de ferro das vigas,
as estrias da cidade,
a carcaça do bandido
enquanto a chuva segue o crespúsculo
precoce do sol
no exílio.

The fall of surf eclipses
the idea of rain.
Water invades the dry season –
consumptive message in a blue mirror –
wrecking certainty
of ground, bread
from millstones thar grind the hands
of those who grind sugar
for those harvesting fingers from orange trees.
Merciless,
rain draws back the sense
of something lost,
a crystal of blood
in the basin.
A body learns the smell
of iron beams
in alleys,
the city’s channels,
the thief’s carcass,
while rain follows the early
dawn of a exiled sun.

(Translated from the Portuguese by Anna Ross and Flávia Rocha)

III

1. Bem, que o desejo

não escape
à fúria desse espelho:

2. advém de parte alguma

como deus
decanta a memória
condiz
à última sentença:

3. quando podemos

morrer?

4. Não parece lógico

se bem que a matéria
torne
arbítrio e santo
um lupanar

5. imediatamente novas

(as rosas)
cultivo no escuro.

1. Bien, que el deseo

no escape
de la fúria de ese espejo:

2. viniendo de ninguna parte

como dios
trasvasa la memoria
correspondiente
de la última sentencia:

3. ¿cuando podemos

morir?

4. No parece lógico

si bien que la matéria
tome
arbitrio y santo
un lupanar

5. inmediatamente nuevas

(las rosas)
cultivo en la oscuridad.

(Traducido para el español por Lorenzo Pelegrin)

IV

?

Tens aquela estranha mania
de comeres fígado pela manhã?
As vísceras da língua?
O mecanismo ideográfico
da palavra, sua ampulheta natural, tens?
O verso, sendo amor e púrpura,
solidez de fogo
(a tempestade amortece os passos
peremptórios na lama)?
Vives náufrago (como acordam todos
de olhos cheios)?
Entendas
Nada te resta
a não ser um beijo como souvenir
ou poema: esta estalactite.

¿?

¿Tienes aquella extraña manía
de comer hígado por la mañana?
¿Las vísceras da lengua?
¿El mecanismo ideográfico
de la palavra, su ampollita natural, tienes?
¿El verso, siendo amor y púrpura,
solidez de fuego
(la tempestad amortece los passos
perentorios en el cieno)?
¿Vives naufrago (como despiertan todos
de ojs llenos)?
Entiende
Nada te queda
a no ser un beso como souvenir
o poema: esta estalactita.

(Traducido para el español por Lorenzo Pelegrin)

Voltar | Back