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Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

Túlio Villaça

A MORTE NOSSA DE CADA DIA

Na 1ª vez que Gabriele foi à janela
Dois carros bateram bem em frente à sua casa.
Ninguém se machucara, mas
Os motoristas saltaram dos carros,
Um sacou uma arma,
Apontou contra a cabeça do outro
E disparou.

Na 2ª vez que Gabriele foi à janela
Dois homens conversavam na entrada do beco próximo.
Um, em pé, segurava pelos cabelos
O outro, ajoelhado à sua frente.
O 1º sacou uma arma,
Apontou contra a cabeça do outro
E disparou.

Hoje Gabriele tem medo de ir à janela.
Mas nem precisa.
Toda noite assiste em sonhos novamente
Aos dois assassinatos. E, quando acorda,
Pra não ficar pensando nessas coisas,
Vai assistir televisão.

CÂNCER

Os funcionários do Banco do Brasil estão em greve.
No Centro Cultural Banco do Brasil acontece a exposição
Iberê Camargo, Mestre Moderno.
A exposição é no segundo andar.
Devido à greve, o segundo andar está fechado ao público.
Ninguém pode assistir a exposição.

Enquanto isso,
Iberê Camargo, mestre moderno,
O maior pintor brasileiro vivo,
Morre.

A ARTE DE NAVEGAR SEM BÚSSOLA

Um elétron
Dispara em linha reta
E se choca com outro elétron em direção contrária,
Provocando uma explosão microscópica
Que libera um feixe de energia
Que por sua vez dispara em linha reta
Até se chocar com um pedaço de metal,
Refletir e perder-se no espaço.

Um relógio de pulso digital
Avança em frente na dimensão do tempo em velocidade constante
Impulsionado por um chip minúsculo,
Do tamanho de uma unha,
Impulsionado por sua vez
Por uma bateria ainda menor,
Que, em última instância,
Governa a vida de uma pessoa.

Um homem
Está sentado num banco
De um coletivo que avança pela rua,
Olhando para ontem e pensando
No trabalho de onde acabou de sair,
Na casa para onde vai,
Nos filhos que tem para criar
E na vida que está deixando se perder.

Um menino
Brinca em frente à TV ligada
Sem dar atenção à programação
Nem a nada que não seja a brincadeira
Sem saber que, sem se dar conta,
Dá sentido à vida de seu pai,
À passagem do tempo
E ao movimento dos elétrons pelo espaço.

L'ESPRIT DU FIN DE SIÈCLE

Vim, vi e vendi.

DIGRESSÃO

O prazer de assistir os amigos envelhecerem
Em seus casamentos e aniversários,
Sem, contudo, poder ter certeza
Se são realmente eles que envelhecem
Ou apenas nosso olhar sobre eles.

(Como quando esqueci o violão no Shopping.
Cheguei quinze minutos antes do cinema,
Comprei o bilhete e sentei na praça.
Na hora da sessão, me levantei
E deixei o instrumento encostado no banco.

Assisti o filme, peguei o metrô
E voltei para casa. Uma hora depois,
Lembrei do violão abandonado.
Dia seguinte voltei para busca-lo,
Torcendo para ter sido encontrado.

O segurança disse que sim,
Haviam lhe entregue um violão ontem,
E foi busca-lo para mim. Mas súbito
Tive medo, não que não fosse o meu,
Mas que não me reconhecesse mais.

Pois tanto eu teria mudado em uma noite
Sem notar, por estar sempre comigo,
Porém ele, assim distanciado
Momentaneamente, perceberia,
E não quereria retornar comigo.

E, com efeito, onde está esse violão
Que não aparece? O guarda,
Embora garanta que o recebera,
Não consegue encontra-lo, e imagino
Que ele se esconde de mim.

Mas não, ei-lo que aparece,
E é o mesmo, não mudou nada,
Salvo um clip que colocaram
Para melhor fechar a capa rasgada.
Agradeço e levo-o para casa.

Mas ele parece me olhar estranho,
Como quem desconfia de mim.
Claro, já foi esquecido uma vez,
E, por sua vez, não se esquecerá.
Mudamos, não seremos mais os mesmos.)

O prazer de envelhecer e assistir os amigos
Enquanto é assistido por eles,
Mudando continua, paulatinamente,
Tornando-se outros, distintos, diversos,
E mutuamente se reconhecendo

NEGROS

Ver de olhos negros,
fechados como os do
bisavô - índio - e da
bisavó - escrava - em
cueiros pela manhã;
o ranço ainda rebenta
com nocaute de esteta
o fluxo de vergonha e gozo.
É a brevidade de um dia
de uma vida solícita ao
pedido deles também pouco
vividos que minha alma
ao ver seu retrato, é negra.

Túlio

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