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Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

Leonardo Gandolfi

PONTO ABSTRATO

As cortinas estão fechadas
Por detrás das cortinas há uma imensa janela
Essa imensa janela também está fechada
E por detrás da janela há o mundo
O mundo da mesma forma está fechado
Por detrás do mundo há alguma coisa
E essa foi justamente a primeira coisa que se fechou

*

Dizê-lo por sobre tudo
repeti-lo até o cansaço
prosseguir
embora mudo e
escrevê-lo até alcançá-lo
Conquanto que agora
em vão seria que estar
contravia - deixar aqui
quiçá as mãos os ombros
a ventania

*

Posto que pasma querer
o que doravante morre
melhor em ti indolor ser
aquilo que outrora
escorre -
sem mão onde se salvar
nem vontade de deter
o que vive ora a acabar
ora portanto a se
erguer

*

Presente em alguma coisa
não há tanto pouco ou nada
Quase um motivo secreto
tão remoto que não pode
saber se está dentro ou fora
se é quando como ou porquê
Pois daqui não vemos muito -
brilham as mesmas estrelas

*

Esta mão não é tua mão
aliás mãos nunca são mãos
se percebidas quais são
por este ponto abstrato
não porque não tenham dedos
ou mesmo vontade própria
mas porque não é tua mão e
porque é uma promessa

*

Aos poucos saíram da sala
um por um como se não fosse permitido
sair todos a um só tempo
Mesmos os mais apressados
abriram mão da pressa
mesmos os mais fortes
abriram mão da força
A apreensão girava em torno
de quem apagaria a luz
de quem fecharia a porta

Leonardo Gandolfi

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