Revista.doc

Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

Franklin Alves

Anzóis

Não fisgar o peixe
deixá-lo (de leve)
tocar a isca
tremular a linha
Assim o poema

E ao voltar
com o aço
com o náilon
saber que a carne
(conformada ao
primeiro)
não é mais
a mesma

*

Céu vermelho

Neste ringue aberto
de todos os dias
Em qualquer round
(pode ser o primeiro o último)
Depois do golpe
(vertigem de agulhas)
beija a lona
vê estrelas
(não as de Pequim)
num céu vermelho
de supercílios
abertos

*

Manchamos o pano claro do dia com sangue. Manchamos outro pano ao tentar limpar o primeiro. Não limpamos o primeiro. A menina japonesa não tinha nenhuma mancha preta no céu claro de sua pele: nenhuma revelação. Calçava botas ortopédicas. Nenhum cego ri daqueles que enxergam (Com o garfo, Borges ciscava o prato tentando encontrar pedaços de carne). Ninguém incendeia objetos ao tocá-los. Ninguém tem formigas deslizando nas veias. Nenhuma puta tem mil bocas, pois só temos um pau. Ainda não tiramos a poeira das coisas.

*

Miles Davis

De nada adiantará
esta música - verso cego

Depois do sopro no barro
do sopro no metal
dos improvisos do acaso
a desviar linhas
milhas da vida e dádivas

perde o fôlego

Deixa que toquem por você
esta música cheia de erros
necessários

*

Palmilhar de-
vagar o corpo
torpor
A língua inclusa
na pele como
agulha
subpor
Cometer de mão
cheia cabeça
vazia os mesmos
erros
Descompor de-
vagar o corpo
etc

*

O grande Buda

Incisa o corpo
Retira dele
essa pequena
peça de metal
cirúrgico:
a angústia
Depois
sem porquês
Morre

*

Céu vermelho

O homem que ia atravessar as caixas, de uma margem a outra, morreu ontem. O outro homem, aquele que ia receber as caixas na margem oposta, desistiu logo após a notícia da morte. Ficamos deste lado com os embrulhos, pensando em abri-los. A dúvida cheia de olhos nos espreitava. Não abrimos. Sob um céu vermelho, meditamos a morte das coisas que elegemos, e que estariam, agora, no outro lado. Meditamos o imprevisto das caixas, que não nomeamos acaso, mas uma ordem que regula desde átomos até casos como este.

Franklin Alves (?)

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