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Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

Eucanaã Ferraz

HABITARE

I
Mais que nenhuma outra:
casa.

Mais que nenhuma outra:
branca.

Mais inteira que possa:
sem porta, sem tranca.

Ei-lo: ovo
(Parthenon, barraco).

II
Estranho granito, estranha guarita.
Gradil compacto, excêntrica parede.

Chão, teto, dobradiça: é tudo.
Ostras habitam o outro da casa.

Porém, sobre o pátio prosaico da mesa,
carapaças, capas-pedras de livros nunca abertos,

quando abertas mostram glândulas,
tripas, transístores, dentros

de um dentro sem
mistérios.

SENTENÇA

Na canção, perdoar.
Deixar que os inimigos durmam

na canção, enquanto caminhamos
à cata de comida, de pátria, de beleza.

Na canção, tentar não morrer,
tentar não estar mudo.

Aceitar o acorde ruim,
dormir ao relento, ter um filho,

dar a outra face ao silêncio
da canção, na canção.

NÃO SÃO

Podem vir abruptas, íngremes, arrevesadas.
Podem ser afabilidade e pele.
Podem ser inflamar-se,
Podem ser guarida.

Acontece: chegam inteiras,
toda justeza cada sílaba,
definitivas, despóticas
ou privam-se do silêncio em que vivem, livres,
para serem acaso e litígio
no unto de páginas
e telas de computador,
à espera de alguma dignidade.

Não há obstetrícia certa
para com elas.
Palavras não são
farinha do mesmo saco.

POR ISSO

Se quer dedicar-se à pintura
deve começar por cortar a língua.

Matisse, penso nele, sempre,
que cismava Tolouse-Lautrec.

Quer dedicar-se à poesia?
Inicie com abrir os olhos.

Leve, obediente, a mão: não deve
a criada tornar-se patroa.

Aprender, aprender, aprender,
encontrar, descobrir,

até que um dia se possa afirmar:
finalmente, já não sei fazer.

VIAGEM

Não levaremos a alma.
Entraremos descalços
ali

onde visível anel tudo alinhava
e o corpo se descubra mais contente.
Alma nenhuma.

Nada que não caiba na fome.
A carne cantará docemente
de não sabermos quem somos.

RELOJOARIA

Dizem
diante de quem morre:
chegou sua hora. Hora que,

certa e da qual não se foge,
não é grão n'ampulheta,
o digital não desenha,

barco algum espera e,
pulso nenhum, oco,
é à prova de cronômetros.

Mais que marco
do instante em que
se quebrou a máquina, é ela,

a hora, que, inexorável,
gasta, morde, rói
e rompe a corda.

Eucanaã Ferraz

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