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Ano VIII | nº 3 | Janeiro/Junho 2007 | Publicação Semestral

André Gardel

Noturno de Chopin

Um turbilhão de aves cegas
Olhares expressionistas
Murmúrios insanos
Prazeres insaciáveis
Levando carros, dias felizes
Supermercados, cenas de filmes
Viagens, gozos, drinks
Luares, idas à praia
Crianças, quadros, cães e gatos
Se distancia ante meus olhos
Em movimentos disformes, mutantes
Assumindo cores vivas
Pálidas, mortas
Um turbilhão descalço
Desnudo, descarnado
Se lança ao passado
Rolando ribanceiras
Batendo nas pradarias
Acendendo flashs
Cheiros, acordes
Canções
Fotos esmaecidas
Achadas na lixeira
De algum prédio abandonado
Ocupado por mendigos
Usando qualquer papel
Para fazer fogueiras
Para fugir do frio
Da noite
De cactos e ruas
Crimes e cortes
Perdas amargas
Vazios infinitos
Transbordamentos vitais
Um turbilhão de aves cegas
Dilacerando
Meu ser
Membros, órgãos, células
Espalhados
Ao sol
Estalando nas águas
Silencioso
Noturno
De Chopin.

Eles apareceram de repente
A cabeça pendente
De um...
A perna cruzada
De outro...
A janela de vidro do quarto
Inesperadamente
Um quadro vivo...
Chegaram aos montes
De todos os lados
Formas presas
Soltas
No ar...
A missão era especial:
Recuperar uma bola caída
No telhado do prédio em frente...
Gritei: saiam daí! É perigoso!
O menorzinho já
Se aventurava por uma calha suspeita
Nada escutavam...
Todos muito hábeis
Lépidos
Leves
Líricos
Trabalhando em equipe...
Saí para procurar ajuda
Um deles poderia morrer...
Voltei com os bombeiros
Mas não havia mais ninguém lá
Nem a bola...

Até bem pouco tempo atrás Havia um sentimento
Um desejo, uma meta
Impulsionando tudo
Farejando arbustos
Lendo luminosos
Improváveis
À caça
De uma idéia
Absoluta
De uma palavra
Fatal
Até bem pouco tempo atrás
Todo o meu corpo se projetava
Na tela cega desse desejo
Cego
Agora vejo
A Praia
Do Flamengo
O Pão
De açúcar
A Baía
De Guanabara
E tudo o que sou
Navega
Na paisagem.

Velho demônio

Pena minha dor voltar diante da Lagoa
Pena eu não viver todo o prazer desse dia
Não rir à toa com as crianças brincando
Não ficar na boa com a vida circulando
Pena esse velho demônio retornar
Justo no meu dia de descanso, em pleno
Sol de verão sob a benção do Redentor...
Quando ele volta sob a escolta da dor
No peito, não há luta, tudo é luto
Em volta só um fato inesperado solta
A corda do pescoço, a corrente das mãos:
Um detalhe na beleza da paisagem
Uma canção que atravessa os olhos
Uma frase solta, um vôo vadio
Nunca se sabe bem ao certo o quê
Mas que vem, vem, uma hora vem
E veio:
Sua mão na minha mão
Sem receio.

Labirinto

Há muito tempo que eu não vou
à praia, que não vou aos pés
do mar, há muito tempo que
não tenho tempo para perder
tempo, para ganhar a vida
perde-se muito, ganha-se pouco
há muito tempo me encontro
Nesse labirinto em que sinto
Sem sentir e vivo sem viver
Há muito tempo não amo mais
você mas não consigo esquecer
há muito tempo o sol não
gruda-se em mim ao som plácido
de aves, marulhos, crianças
automóveis, manhãs...

André Gardel

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